terça-feira, 9 de outubro de 2012

Contos Aesgardianos 4 - O Despertar de Thrim!


CONTOS ASGARDIANOS 4
O Despertar de Thrim
(Por Áistan Falkar - ano 2006 da vulgar era cristã)


Skadi estava passeando pelas cercanias da fronteira entre Thirmheim e o Urdhvel em Idavoll.
Tudo estava tão calmo e tranqüilo, tão perfeitamente ordeiro agora que Loke não mais estava em Aesgard, já que por determinação de Odin, deveria ele permanecer com a esposa humana e o filho que havia abandonado em Midgard.
A sabedoria do Allfather sempre a impressionava, agora que ele tanto tinha que assumir sua responsabilidade, quanto manter-se limitado aquela área, todas as guerreiras de Skadi e de Lady Freija, poderiam ter um mínimo de descanso, em meio a suas quase incontáveis tarefas, sem ter que guarnecer os tesouros mais preciosos de seus respectivos reinos, contra as inacreditáveis, vis e irritantes brincadeiras do Deus do Fogo.
Em dado momento ela começou a peregrinar juntamente com sua comitiva, pelos bosques próximos, extasiada pela presença de um beija-flor que insistia em se banquetear em uma das muitas “...flores de neve...” que lutavam por crescer próximas da fronteira.
Pouco importava ao pássaro se aquela flor era mais fria do que as demais mesmo estando tão perto delas, e pouco importava também se sua seiva era naturalmente gelada ao toque, muito embora sua plumagem ficasse toda eriçada quando provava do néctar da “...flor de neve...”.
Aos poucos foi observando a brisa da tarde, que naquele período que corresponderia ao meio do Verão, onde os dias eram muito maiores do que as noites, e Freija a muito já havia tomado posse do Brosingamen pelo próximo meio ano.
Observou as sombras que cresciam próximas de um forte e frondoso Freixo que estava crescendo tanto em suas terras quanto na Planície de Ida, basicamente sendo um marco comum para ambas.
Contudo ao virar-se notou que a encosta das montanhas estava muito mais esbranquiçada do que normalmente deveria estar naquele período.
A neve estava se juntando ali, se aglomerando gerada não pela precipitação, e sim pelo acúmulo de ar úmido e frio sobre uma superfície ainda mais fria, o que consistia em um absurdo para aquele período, mesmo em Aesgard.
Expandindo sua consciência, ela procurou tomar ciência do que estaria se passando, um pouco mais alarmada do que seria sua reação natural diante de algo assim, uma vez que o Frio   era seu elemento e inteiramente de sua responsabilidade.

“...Algo está errado! Sinto o Frio se expandindo, crescendo e indo além dos limites naturais...Sinto que vem em ondas ou mesmo em vagas, com um certo padrão...É quase como o bater de asas...”

Após este pensamento, Skadi estancou aturdida!
Ela já havia visto algo similar a isto eras atrás, porém não parecia ser possível, não havia nenhuma possibilidade em toda a Yggdrasil disto ser verdade.
Muito alarmada, pôs-se rapidamente em curso para o topo da principal montanha, que fazia sombra ao sul com a sede de seu reino.
A Deusa Jotun havia se afastado a muito tempo daquela região, e somente duas vezes por ali passou no decorrer das eras, e isso a muito custo, pois sempre que por ali estava a tristeza englobava seu coração.
Ver o corpo do pai, ardendo em chamas a distância, sem nada poder fazer, e tudo isso por conta de um desejo incessante e torpe.
Claro que ela havia duramente avisado a ele que sua última empreitada era muito arriscada.
Na verdade foram dias inteiros de gritos, e para cada passo que o pai avançava em sua frivolidade, um golpe com sua Massa de Batalha arrebentava outro pedaço dos corredores do palácio:

- Pai onde o senhor está com a cabeça? Um rei descer a este nível, e por quê???
- Minha filha, você não poderia entender as intrincadas malhas da política, você não poderia de forma alguma perceber que........
- Perceber o quê?? Que você está para causar uma guerra com os Aesgardianos por causa de um “...Rabo-de-Saia...”???? Ou vai querer me enrolar de novo com aquela história mal contada, de que foi tudo um plano para fazer com que os Ases envelhecessem, e assim todos os Eatins, Bardas e Jotuns pudessem se apossar dos tesouros em Valholl ou em Thrudsheim???
- Ora, minha filha, mas é claro que é isso...Em que mais você acha que eu, em minha magnanimidade estaria pensando???

Nem era preciso dizer, seus olhos estavam vidrados no espaço como se pensasse compulsivamente em algo, e de sua boca um filete asqueroso de baba escorria – sem mencionar que as penas negras do topo de sua cabeça, estavam eriçadas, o que nunca era bom sinal.
O que em verdade havia acontecido simplesmente, era que o pai de Skadi, era um dos mais renomados mulherengos que já haviam sido gerados em meio aos Bardas e Jotuns, após a morte de Ymmir ter gerado a inundação de sangue que matou a quase todos os Gigantes da primeira Era.

Contudo, ao contrário de outros como por exemplo Thunnar e do maldito Deus do Fogo, que eram igualmente sensualistas e não imaginavam ser politicamente correto deixar intocada qualquer mulher que estivesse no mesmo espaço físico que qualquer um deles, mas que contudo conseguiam manter suas cabeças no devido lugar. Seu pai ficava tão completamente absorto nos seus planos e na devassidão ligada a eles, que todas as coisas em seu reino viravam de pernas para o ar como um reflexo do que ocorria na cabeça do rei.
Ela lembrava-se vagamente de um felino imenso e de enormes presas  que encontrou por aquele período, e que estava fugindo completamente aterrorizado, sendo perseguido por nada menos do que uma cruel e assassina criatura, igualmente alterada, cujos olhos vermelhos e esbugalhados, estavam tão injetados que causavam terror em quem ousasse pousar os olhos em seu lúgubre olhar.
A criatura avançou a largos passos para o felino, e a cada passada percorria mais e mais a distância que a separava de sua vítima, e então encurralou o felino que por algum motivo ainda mais insano, parou de correr e pensou em se camuflar, galantemente erguendo as ancas e enfiando a cabeça na neve, até que esta ficasse completamente atolada na mesma.
Com náuseas da sena que se desenrolava em sua frente, Skadi observou o ser se aproximar e preparar o bote!
Com movimento rápido a doninha cravou profundamente seus  dentes na cauda do felino que saiu sacudindo e batendo a cauda em tudo em seu caminho até se desvencilhar do antagonista, e então fugiu saindo da vista de Skadi.

Era o literal cúmulo do absurdo!

Chegando ao cume da Montanha da Asa dos Ventos, Skadi sentiu mais uma vez o pulsar estranho, permeando tudo em que tocava.
Caminhou com todo o cuidado em direção às ruínas do castelo, e deixou que seus sentidos a orientassem, o que a deixou imediatamente contrafeita, pois o pulso estava realmente vindo do interior das ruínas da imensa construção feita em eras passadas.
Observou as sombras que se arquejavam a sua frente.
Viu com muita curiosidade o desenrolar de uma trama similar a uma teia de cristal, que estava ligando duas paredes miraculosamente intactas apesar da passagem do tempo.
Ao chegar mais perto, notou surpresa que a trama em cristal continha inclusive uma representação aracnídea fixada a teia, na proporção exata, e quando tocou a teia, para seu estarrecimento percebeu que aquilo estava extremamente frio.
A trama não era de cristal, aquilo era uma teia que havia se congelado de forma instantânea pela presença mais potente do pulso dentro das ruínas do antigo castelo.
E ali dentro, naquele exato momento, ela notou que algo ainda mais estranho estava ocorrendo, as paredes do castelo estavam – muitas delas – intactas e algumas davam a impressão de estarem muito mais conservadas do que da última vez que havia ali estado.
Desviou os olhos mais uma vez para a trama de gelo na parece, pois notou algum tipo de movimento, como uma forma de espessamento.
Ao voltar os olhos adiante mais uma vez, constatou que uma das paredes que a pouco pareciam incompletas, haviam atingido o teto, que antes era inexistente.
Tudo isso de uma brancura assustadora e que exalava um frio tão intenso, que ela mesma quase poderia tremer, se não fosse quem era.
O palácio estava ganhando vida mais uma vez, e a vida estava causando o desequilíbrio que havia notado próximo da fronteira com Idavol.
Continuou caminhando e chegou até aquilo que foi um dia a sala do trono de seu pai.
Ali após incidente envolvendo o deus da traquinagem, as poucas cinzas de seu pai que ela pôde recolher, foram deixadas dentro de uma orbe, sobre uma imensa mesa, e não mais que meia era depois, o palácio foi abandonado por seus ocupantes, que decidiram se dirigirem para o Hagar de Lady Skadi, quando sentiram a vida abandonar completamente aqueles aposentos antigos.
Ao chegar ao local uma imensa massa de ar frio golpeou seu corpo inteiramente, fazendo com que sua capa branca esvoaçasse, e descobrindo o alvo capuz de cisne, de sua cabeça.
Com um comando, o ar diminuiu sua intensidade, mas não cessou sua atividade como ela pretendia – coisa que deixou-a ofendida, pois algo em seu reino e em seu elemento principal, estava desafiando-a.
Ao entrar na sala do trono, deparou-se com um ampliação tão grande do vento, que desta vez somente pôde diminuí-la o suficiente para esgueirar-se pela parede, e proteger-se mantendo-se atrás do imenso trono que fora de seu pai.
Ao erguer os olhos para o núcleo da tormenta branca a sua frente, não pôde conter o espanto:

- PAI, É MESMO VOCÊ????????!!!!!!!!!!

****************

Era cedo ainda para ficar conferindo o relógio, mas Arícia não conseguia se conter!
Estava em um período de férias da escola, e havia conseguido uma pausa nas torturantes e sádicas sessões de treinamento com Hlokk, e para melhorar ainda mais, havia ganhado um concurso para assistir a um festival de Rock na França.
Não gastava muito do tipo de música tema, pois dava-lhe nos nervos toda e qualquer possibilidade de estar a menos de 5 km de indivíduos com tendências a incessantes choradeiras musicais, vestidos de preto e rosa, e lamentando a vida.
Além do que, por mais que o estilo em si tivesse ficado tão popular e crescido tanto em tão pouco tempo, quem quer que tivesse inventado esse novo estilo de Metal -  Folk Metal Gótico – deveria ter um parafuso a menos na cabeça.
As letras das músicas eram boas, lembravam estranhamente muito daquilo que Hlokk e o cínico Rauthwolfs lhe ensinavam, quando Rauthwolfs não estava tentando assustá-la ou deixá-la com náuseas. Esses episódios deixavam Hlokk mortalmente irritada com o berseker,  que era agredido por algo cruelmente pesado ou perigoso, normalmente saindo completamente ileso.
Na verdade, Arícia estava apreciando a viagem porquê o roteiro do concurso dizia que o vencedor faria a abertura do Show, juntamente com Mike Margnnweb, artista, ator, cantor  e ídolo de Arícia, em questão.
Essa perspectiva deixava-a completamente aérea, e até mesmo o seu recém descoberto medo de aviões fora esquecido pela mente delirante de Arícia, que já fazia planos de casamento, filhos e uma vida inteira ao lado de Mike.
Só de pensar nisso, apertava com força a imagem do ídolo que estava na propaganda do evento, juntamente com demais materiais promocionais que haviam sido entregues par Arícia, quando ganhou a promoção.
Estranhamente, o rosto da figura do rapaz, que estava na imagem da promoção,  parecia se contorcer em sofrimento sempre que ela fazia isso!
Mas nem tudo eram nuvens coloridas, Arícia estava ouvindo – ainda que levemente – alguém muito perto de si, que ao que tudo indicava, apreciava além da medida do que é são, o tal Folk Metal Gótico, pois era claramente evidente que a música de uma cantora – justamente aquela que pareceu ter inaugurado este estilo de música – tocava vez após vez em um fone de ouvido – provavelmente quebrado – que projetava o som sobre ela mesma.
Ela tentou fingir que não estava ouvindo, ma o som estava conseguindo penetrar em sua cabeça e a voz da cantora, por mais que fosse bonita, tendo aquele pano de fundo musical, estava lhe causando verdadeiros chiliques.
Após 3 horas de intenso sofrimento, quase em histeria mas mantendo toda a compostura, ao identificar seu “...algoz...” como a “irritante-garota-vestida-de-gótica”, que estava sentada na poltrona exatamente atrás de dela.
E por mais estúpido que pudesse ser, era a mesma garota que havia trombado com ela no saguão do aeroporto, e que havia falado meia dúzia de palavras por cima do ombro, sem dar atenção ao fato de que fora ela mesma quem havia causado o acidente, e ainda por cima – para Arícia – parecia fingir não ver que a melhor camiseta de Arícia havia sido expelida da mala, e estava agora no chão, no exato local onde ela insistia em ficar raspando os pés.
Arícia na ocasião só não armou nenhum escândalo, porquê estava apressada para pegar o avião.

- Você poderia por favor abaixar esse volume? – E apontava insistentemente para o fone e com a outra mão, demonstrava sofrimento em seus próprios ouvidos .
- J’utilise um casque. Vos ne devriez pás entendre! – Replicava a outra, entendendo até certo ponto o que se passava.
- Os seus fones estão quebrados! – E gesticulava, demonstrando algo se quebrando entre seus dedos, e apontando para os fones,  dando a entender claramente o que queria expressar
- Tu es fausse, note... - Rebateu a outra, em seu próprio idioma, aproximando a mão de seus fones.

E retirou os fones, e o som mergulhou quase na mesma hora em todo o ambiente, fazendo com que todos os  passageiros se entusiasmassem e começassem a acompanhar a música, bater palmas e em alguns casos soltarem um discreto “...Eu amo Madeleine...”!
Sob o som da música “Lumiére de L’aube”, que parecia invadir cada centímetro cúbico do avião, Arícia começou literalmente a sentir uma mescla de náuseas com ódio.
A garota só podia estar querendo arrumar uma briga, e justamente agora quando tudo parecia estar correndo bem?
Com toda a calma que residia em cada partícula de sua alma, respirou fundo, rapidamente bolou um discurso elaborado para se fazer convincente, e encarou sua antagonista de frente.
O panfleto contendo o rosto de Mike, parecia se contorcer sozinho – Arícia poderia julgar que ele estava rindo, mas isso provavelmente era algo ridículo – e tomando a iniciativa, o mais calmamente que já fez algo em sua vida, ela iniciou uma conversa com a outra garota:

- ESCUTA AQUI SUA GÓTICA RIDÍCULA, OU VOCÊ DESLIGA ESSA PORCARIA OU EU VOU ARRANCAR OS FONES COM AS SUAS ORELHAS JUNTO!!!!

E jogou-se para frente, grudando nas orelhas da outra garota, que inicialmente assustada agarrou também Arícia, contudo pelos cabelos, gerando um efeito similar a uma  briga de comadres em uma reunião de antigos internos de um hospício.
Ambas rolaram pelo piso do avião, envolveram duas aeromoças na briga, que pretendiam separá-las mas que acabaram sendo estapeadas, e começaram logo a também agredi-las, se agredirem, e por fim serem esmagadas pelas duas, que estavam rolando mais uma vez pelo chão.
As duas somente pararam quando colidiram com um homem, que acabava de retornar dos fundos em direção a sua poltrona.
O homem não foi levado ao chão pela briga de “pitbulls” que se desenrolava pelo piso do avião, pois conseguiu desviar-se como se fluísse para longe do contato com as duas.
Olhando para ambas, e consternado por perceber que uma delas era Arícia, não foi até ambas imediatamente, mas deslocou-se para o piso do avião, próximo das poltronas, e calmamente observou o que havia ali, fitando então o panfleto, cuja imagem de Mike estranhamente parecia olhá-lo de volta, com uma expressão curiosa que parecia querer dizer: “...ÍÍÍÍÍ...ME DESCOBRIRAM...”

- Loke, quer por favor parar com essa balburdia antes que algo pior aconteça e o avião despenque???!!!???
- Ora...Bragi... Como é bom ver você por aqui...Que coincidência...Que tão auspiciosos desígnios das Nornes, em sua excelsa sabedoria, nos teriam feito estar juntos aqui nesta...........
- LOOOOKKKKKKKEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! – Gritou então o homem, conhecido pelo nome de Jean-Marry.

Então para horror completo de todos que estavam no avião, a figura se espremeu, enfiou as mãos nas bordas do papel, e foi tomando impulso e saindo, a exemplo de quando estamos passando por algum local muito apertado, até que ao sair completamente, olhou para frente.
Os gritos de terror, foram rapidamente substituídos pelos aplausos dos que estavam no avião que imaginavam estar participando de algum evento promocional, com a presença do famosíssimo Mike Margannweb.
Arícia e sua nova e mortal “inimiga-que-sabia-como-arrancar-cabelo-como-ninguém”, ficaram extasiadas e imediatamente pararam o que faziam para ficar literalmente aos pés de “Mike”, enquanto este distribuía sorrisos magnânimos para todos.

- OH...MIKE É VOCÊ...MIKE VOCÊ É LINDO...MIKE EU TE AMO – Berrava Arícia ensandecida.
- MIKE, C’EST TOI...MIKE TU ES MAGNIFIQUE...MIKE JE T’AIME – Bradava aos quatro cantos do mundo a antagonista de Arícia.

Então Jean Marry, ou melhor Bragi, com um movimento de mãos fez com que todos se acalmassem e voltassem a seus lugares, como se nada tivesse acontecido, e fez os 4 ficarem impercebíveis aos curiosos:

- Loke, retire logo esse disfarce antes que essas duas comecem a salivar e manchem a minhas roupa!!!

Para uma total contrariedade de ambas, Loke se sacudiu como se fosse um lobo secando seus pelos após sair de um rio, e mostrou-se com sua costumeira forma magra e ruiva.
Tanto Arícia quanto a protegida de Bragi, detestaram a mudança.
Mas foi Arícia quem falou primeiro:

- Maldito, você me enganou...e...e...e estava escondido na minha revista???? – a indignação era evidente em seus olhos.
- Bem, na verdade eu vim com o material promocional, junto com você!
- Mas porquê eu? Com todas as mulheres que receberam esses panfletos, por quê justamente eu? – o asco neste momento era uma convincente voz, em seu peito.
- Bem...cof-cof-cof...Sabe a promoção que você ganhou?
- O que tem ela? - A raiva soprou em seus ouvido.
- Era apenas uma forma de fazer você legalmente se ausentar por algumas semanas de casa!

Arícia parecia em transe, e tal e qual um zumbi começou a balbuciar frases, :

- Os panfletos? – balbuciou.
- Foram obra exclusiva minha, convincentes não – dizia o homem que estava ao lado da garota francesa e irritante.
- Mas e a propaganda no rádio e na televisão? – rastejava sua voz em súplica.
- Ah, isso...Eu sempre tive talento para atuar, e mais de uma vez representei comigo mesmo na mesma hora em dois lugares ao mesmo tempo! Afirmava Loke para a pobre Arícia.
- Aham...Mike....? Agarrava-se em uma última tentativa, a sua dourada fantasia romântica adolescente.
- Lamento mas acho que ele sequer saiba de sal existência! – Completou então Loke, com a delicadeza de um rinoceronte pisoteando formigas.
- Ah...Certo... – Ao dizer isso, Arícia em suas últimas reservas nervosas, imaginava-se sendo dissolvida com o vento.

Contudo ela foi despertada pelo som  recém revivido, de “Lumiére de L’aube”, que outro passageiro resolveu ouvir com o rádio em volume máximo!
Isso foi a gota d’água para Arícia:

- AAARRRGGGHHHHHH! Já chega!

E pulou em cima do estranho ruivo com sorriso jocoso e expressão esquisita a sua frente.

E rolaram pelo chão, com ela tentando arrancar as orelhas de Loke, que estranhamente esticavam, enquanto ele tentava arrancar seu cabelo, em uma parodio ridícula da situação anterior.
A certa altura, quando também as aeromoças mais uma vez entraram na briga e começaram também a rolar no chão, umas contras as outras, Bragi interferiu:

- Basta! Todos retornem a seus locais de origem!!!

E instantaneamente foi o que ocorreu!

- Ora bolas Bragi...Você tem que se decidir...Ou fora ou dentro desse panfleto...!!!

Isso dizia Loke, para Bragi logo após as coisas terem se acertado.
Bragi sem  reservas, literalmente enfiou a mão dentro do panfleto, e arrancou Loke dali.
Em seguida procurou acalmar sua protegida, e conversou discretamente com Arícia:

- Você está sendo treinada por uma Idisir não é?
- Como você sabe disso...Você é como Hlokk ou Rauthwolfs? – falou Arícia.
- Bem, na verdade estou em uma outra categoria divina eu sou...
- Ora bolas, não tem sorvete neste maldito cardápio...Eu vou reclamar com a aeromoça e...
- Loke, por favor concentre-se por alguns míseros instantes...Lembre-se que isso é do seu total interesse!
- Ummmm...Ah é...As vezes minha consciência pede férias!
- Suspeito que, isso seja algo freqüente, não é mesmo?
-DARIA PARA VOCÊS PARAREM COM ISSO, E ME DIZEREM LOGO O QUE QUEREM? – perguntou Arícia enfurecida!
- Como eu dizia, eu sou.....
- Cobertura de nozes....tem que ter nozes...o que é um sorvete sem nozes????
- LLLLOOOOKKKKKEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!! – Gritou Bragi.
- Está bem, está bem...eu ficarei calado!
- Como eu dizia...Eu e este ao seu lado, somos deuses aesgardianos!

A garota, aos olhos de Bragi, não parecia surpresa, e ele estava creditando isso ao treinamento rigoroso que Hlokk estava lhe dando.
Contudo ela retrucou:

- Em Você eu posso acreditar...Mas nele...Ele estava puxando o meu cabelo...Ele chegou a morder a minha mão...Que raio de deus é esse???
- Raio não...Fogo se me faz favor!!!
- Fogo? Fogo como em “...O Deus do Fogo do Qual Você deve Ficar Longe se Tem Respeito pela Vida Inteligente do Planeta...”? – dizia Arícia, como se estivesse declamando algo que alguém a houvesse dolorosamente forçado a decorar.
- Ora...Foi você quem inventou isso??????? – perguntou Loke constrangido!
- Não...Isso foi o meio que uma pessoa que conheço usou, para exemplificar o Deus do Fogo, quando perguntei a ela sobre os Deuses!
- Raios...Isso parece até coisa dita por Idisires...
- Isso mesmo, estou sendo treinada por uma delas e por um berseker, tem algum problema com isso?????????
- Uhumm...Idisir é...cof-cof-cof...Ah...tá....certo...olha eu vou passear um pouco e já volto!
- Não!!! Não se atreva a sumir...Eu e Você, juntos, contaremos a ela dos problemas que estão vindo. – disse Bragi a Loke.

Enquanto esse diálogo se passou, Arícia notou que a garota irritante, parecia nem ouvi-los conversando:

- O que há com ela? – perguntou a Bragi.
- Ela não tem estrutura para suportar o que vem por aí, assim fui forçado a garantir que não entre em colapso!
- Você a hipnotizou? – perguntou Arícia.
- Não dessa forma, mas a estou mantendo quase como se estivesse sonâmbula, até que os problemas passem.

***


Quando pousaram no aeroporto Charles de Gaulle, Bragi habilmente levou-os ao terceiro portão, onde já havia uma limusine os esperando.
Não houveram mais problemas no transcurso da pequena viagem até o Champs-Elysees, onde a extremamente concorrida e cara suíte principal os aguardava.
Loke perguntou a Bragi como ele conseguiu tão facilmente ter acesso aquele quarto, cuja diária valia uma pequena fortuna.
Bragi lhe disse que o os donos e uma longa lista de gerentes lhe deviam favores, e que sempre que precisava de um local onde pudesse displicentemente passar algumas horas, ele se imediatamente se dirigia para lá:

- Sabe como é...Todo mundo precisa de um cantinho simples, onde possa tomar com tranquilidade algumas taças de Château Ausone...Não é mesmo?
- Pra mim, você coagiu todo eles com os podres que andou descobrindo!
- Ora Loke...Eu não seria capaz disto! É bem verdade que ao procurar ajudá-los, eu acabei sabendo de uma ou outra coisa desagradável, mas nunca precisei fazer uso disso, vai contra os meus princípios!
- Ah...Bem...Entendo muito bem isso, eu também sou muito afeito a todos os bons costumes em prol da decência, hombridade, moral e...
- Pai...O senhor não vai começar com esta história de novo não é!!!

Neste momento, Erick que já estava na Suíte desde o dia anterior, aguardando a chegada de todos, não podendo mais se conter ao ouvir seu pai, por conhecer bem a eternidade dos discursos de Loke quando começava a falar a esmo, sem qualquer motivo que não fosse o de ouvir sua própria voz, mesmo que lhe custasse a cabeça – o que de fato já havia ocorrido em uma ocasião anterior, quando um Swartalf a exigiu como pagamento por ter feito a Gungnir e os demais artefatos preciosos dos Ases!

- Erick! Filho, que enorme prazer em vê-lo “...SOZINHO...” aqui! Eu fico tão imensamente alegre em saber que você está aqui! Que poderemos passar um tempo juntos “...só-eu-e-você...”, sabendo que sua mãe ficou na segurança e “sacralidade” de nossa casa em Paneville, mesmo que isso implique na mais profunda tristeza nas entranhas do meu ser...
- Pai...Não sei como lhe dizer isso mas...A mamãe implicou tanto com o motorista de táxi que ele acabou deixando-a vir no carro...E no aeroporto ela dizia estar tão fascinada pela idéia de viajar para Paris, que resolveu comprar uma passagem de avião e vir junto...Na verdade ela está agora, exatamente parada atrás do senhor...

Loke não teve nem mesmo tempo de ficar boquiaberto, simplesmente porquê algo atrás dele desatou a matraquear alto e repetitivamente, tão ferozmente que ele por instinto se eriçou todo e pulou, agarrando-se ao teto com as unhas das mãos e dos pés, e dando patadas no ar, enquanto rosnava...

- Grrrr...Fisssc...Fisssc...Grrarrrr!!!

Newdred nem mesmo piscou, e nem se importou com aquilo, simplesmente continuou com seu “matraquiar” infernal e ininterrupto:

- Então senhor meu marido...Tentando escapar não é mesmo? Olhe muito bem, você não vai a parte alguma, eu vim e não vou desgrudar de você de maneira nenhuma! Ouviu, não importa onde você for!!! Está meu ouvindo bem??? Você é um imprestável, mentiroso, enganador, metido, canalha...
- BBRRAAAGGGGI....Você prometeu que conseguiria mantê-la longe!!!
- Uhum...Ao que tudo indica, a vontade concentrada de todos os Ases está atraindo-a para você e enfraquecendo meus encantamentos. Se você ficar mais afastado do que uma determinada distância, ela provavelmente vai dar um jeito de saber onde você está, encontrar você e descarregar horas de sofrimento sonoro – e eu suspeito de que físico também – como um tipo de gatilho mágico vinculado as regras da punição que lhe deram!
- Mas nós viemos aqui porquê eles disseram para fazermos isso...Você sabe tão bem quanto eu que ela vai atrapalhar qualquer coisa que fizermos!!

E foi arremessado ao piso, pela força de uma vassourada que pareceu exercer sobre ele o mesmo efeito que teria se tivesse atingido um gato de verdade.
Bragi refletiu sobre isso, contendo com muito esforço um sorriso que relutava em tentar se fixar em seu rosto, e concluiu que o que quer que Loke fizesse que influenciasse Newdred de alguma forma, reverteria e reverberaria de uma maneira impensável contra Loke.
Contudo, era verdade que uma mensagem de pelo menos um dos Ases o havia alcançado, em condições tão estranhas que os sinais  envolvidos somados ao lançar das runas, o fez concluir que devia agir o mais depressa que pudesse.
Recompondo-se, olhou para frente e entoou uma melodia que costumava cantar nos tempos em que era um menestrel viajante.
A canção em questão, produziu um estado de estupor tão grande seguido de imensa placidez, nas cortes onde se apresentava, que acabou por gerar um certo conto de fadas retratando a lenda de uma dama que adormecia ao perfurar o dedo em uma roca.
Newdred adormeceu segundos depois, assim como Erick, Arícia, Madeleine, o garçon que estava no quarto ao lado, o ascensorista, a equipe de limpeza, e dois agentes do governo Armênio – fato este que causou um mal estar muito grande na Câmara do Senado Francês, pois os dois eram peças chaves em uma investigação conjunta, sobre corrupção!
Bragi e Loke saíram do hotel, deixando a conta paga pelo tempo que Bragi julgou necessário, para concluírem o que deviam fazer e saírem da França.
Levaram consigo somente Erick, Madeleine e Arícia.
Newdred, ficou no hotel com um reforço do encanto de Bragi, para que tivessem tempo de agir:

- Não tenho certeza de quanto tempo vai durar isso, mas teremos pelo menos alguma mobilidade!
- Isso...E paz para nossos ouvidos!

***


Madeleine estava com a boca aberta, olhando em frente com a mesma expressão que qualquer pessoa normal teria, se fosse abordada por um guarda de trânsito usando pantufas rosadas. Em seus olhos nada dava indicação do que pudesse estar passando em sua mente, e mesmo que o mais potente telepata deste mundo pudesse ler seus pensamentos, lograria êxito em entendê-los, tal a trama tecida por Bragi para mantê-la sob controle.

No entanto apara evitar que a curiosidade acabe por causar danos e transtornos aos mais curiosos, vamos tentar pescar alguma coisa:

“...Asperges lapins, poussins, muguet belles voitures de sport leur, en mangeant et en agitant à nous ... pour moi, comme je marche par cette route, seul, d'apporter des bonbons pour ma grand-mère ... portant burqa rouge ... "
 
O que em português soaria como:

“...Coelhos, lindos coelhinhos, em seus carros esportes, comendo aspargos e dando tchauzinho para mim...enquanto caminho pela estrada a fora, sozinho, para levar os doces para a vovozinha...vestida com minha burca vermelha...”

Bem, agora podemos tranqüilamente seguir adiante, sentindo que cumprimos com nosso dever de fazer claro, tanto a dificuldade que os telepatas teriam para entender que diabos está se passando naquela cabeça francesa, quanto a reação exagerada que se seguiu quando Bragi retirou-a do encanto.

Devem os mais curiosos entender que Madeleine havia se acostumado a viajar com Jean-Marri e muitas vezes acordava em locais para os quais não conseguia lembrar-se de quando havia chegado, mas que sempre eram de primeiríssima classe.

Jean-Marri, ou seja Bragi,  havia optado por adotar aquela tática com ela, porque apesar dela ser uma garota adorável e bonita, tinha uma tendência realmente tocante para a neurastenia exagerada, e somente após muito tempo percebeu que ela era Agorafobica, zoofobica, Coulrofobica, Globofobica, Algodãofobica, Itifalofobica, Pteronofobica e o pior de tudo era Efebofobica, ou seja ela possuía um verdadeiro horror desmedido em relação a toda e qualquer coisa ligada a indivíduos em fase de crescimento, irritantes, teimosos e de inteligência rudimental, de qualquer tamanho ou biotipo, com os quais sequer viesse a supor que tomaria contato, em resumo, todos os seus fãs.

Para ser realmente sincero, Bragi após testemunhar o estado de total paralisia e apatia, seguido de palpitações cardíacas  e contrações faciais no lado esquerdo de seu rosto, logo abaixo do canto do olho, pelo qual Madeleine havia sido acometida, após aproximar-se de um parque com grama mal cortada, fez com que ele tecesse  intrincada teoria de que qualquer coisa em que Madeleine pudesse pousar seus medrosos pensamentos, por mais de cinco minutos, resultaria em algum tipo novo e não estudado de Fobia, pela medicina moderna.

Desta forma, imaginem o efeito causado nela, quando despertou do sonambulismo  induzido, e ao abrir os olhos não reconhecendo o lugar – um legítimo pulgueiro de fama duvidosa -  depois não reconhecendo as pessoas a sua volta e por fim reconhecendo de imediato Arícia?

- Jean-Marri ou je? Qu’est-ce qui se passe? Vous? Je vais te tuer!!!!!!!!!!!

E pulou no pescoço de Arícia e as duas recomeçaram a mesma dança do avião, e rolaram pelo chão, com Arícia tentando arrancar as orelhas dela e ela tentando torná-la mais uma integrante da grande legião de pessoas desprovidas de cabelos neste mundo!

Destruíram uma mesa redonda e baixa que ousou estar a frente delas, e miraculosamente deixaram intocado um vaso sobre os escombros da mesa.

Loke, imprudentemente tentou apartá-las, e ambas ao reconhecerem o episódio dele disfarçado de Mike Margnnweb e saindo da revista, em um movimento mais parecido com luta ensaiada do que com rancor liberado, pularam ao mesmo tempo, uma no pescoço e a outra nas orelhas, e começara a fazer um “cabo de guerra”, com a cabeça de Loke, que esticava, esticava, esticava, até que com um sonoro barulho de explosão – como aconteceria com um balão nas mãos de uma criança traquina – fez com que cada uma delas caísse afastada da outra.

A sena seguinte foi um pouco mais medonha do que elas estariam acostumadas, quando o corpo vagou alguns instantes como um zumbi canibal, caçando-as enquanto a cabeça aos poucos crescia.

- Socorro!!! Hlokk tinha razão!!! Tirem este maníaco psicopata sem cabeça de perto de mim!!!

- Jean-Marri, aider!!!

No momento seguinte, Jean-Marri apareceu na sala, com um celular na mãos esquerda, e uma expressão primeiro espantada com a sena, e depois mudando rapidamente para o semblante de quem já havia visto um filme parecido com aquele, e já não estava mais suportando a sena repetida:

- Loke de novo o truque do sem cabeça?

- Desculpe, mas elas não paravam de brigar, e eu não pude resistir! Livrei-me de uma baita encrenca com algo assim!

- Sei, sei...O dia em que Brokk e Eitri, exigiram sua cabeça como pagamento em troca de fazer o Mjollnir, a Gungnir, o Draupnir e o Javali de Ouro de Freir, não é?

- Isso, isso, isso...Já imaginou algo assim tão bárbaro, tão fora de propósito? Querer me matar?

- Uhum...Pois é não é mesmo...Eu te conheço pessoalmente a menos de 4 horas e já quero te matar!

Arícia disse isso sem sequer ter planejado, era quase com algo automático, no entanto enquanto falava notou que a outra garota a estava observando, com uma expressão espantada!

“...Raios, e agora o que será? Essa maluca vai ter outro chilique?...”

- Eu entendo você! Mas como isso é possível? Agora a pouco você estava falando com aquele sotaque estranho naquela língua diferente?

- Jean-Marri? O que está acontecendo?

Loke olhou de lado para Bragi, e notou que ele ainda estava terminando algum encanto, e parecia bem complexo porque ele normalmente conseguia fazer coisas assim e jogar xadres com duas pessoas ao mesmo tempo, sem sequer transpirar, e ele nem havia se dado ao trabalho de responder a Madeleine.

Passados alguns segundos, ele cerrou os olhos, respirou fundo, e sorriu para Madeleine:

- Calma minha querida, venha comigo e contarei tudo em detalhes para você!

Ambos se retiraram, enquanto Arícia dirigia aos dois um olhar assassino.
Erick aproximou-se dela neste momento, e com muito cuidado procurou desculpar-se pelo pai:

- Queira nos desculpar, mas apesar de todos os seus esforços, a cordialidade e atitude amena de meu pai, não está surtindo efeito!

- Amena? Aquilo é o que ele chama de Amena? Ele me deixou quase morta de medo, com aquela história da cabeça estourando!

- Bem poderia ter sido muito pior, sabe?

- Pior, como algo poderia ter sido ainda pior do que aquilo?

- Ele poderia simplesmente ter feito brotarem tentáculos espumosos do corpo e amordaçado vocês duas com eles!

Ao som dessas palavras Arícia se imaginou sendo atacada por uma repelente quantidade de tentáculos asquerosos, e pensou que para o Deus do Fogo, talvez o episódio da cabeça, fosse “...pegar leve...”.
Então, antes de pronunciar qualquer coisa, ouviu uma já conhecida melodia, ressoando pela sala, vinda do lugar onde Bragi estava junto com “aquela gótica francesinha mal educada e irritante”, que acabou por esbugalhar seus olhos, rajados naquele momento em vermelho sangue:

- “Lumiére de L’aube”, “Lumiére de L’aube”, “Lumiére de L’aube”!!!!           AAARRRGGGHHH!! Eu odeio essa música insuportável!!!!

E quebrou o vazo que estava sobre os restos da mesa, largados pelo chão da sala, atirando-o contra a parece que fazia divisa entre a sala e o cômodo onde os dois estavam.
Loke sorriu e começou imediatamente a aplaudir, apesar dos olhares de desaprovação de Erick e de Arícia.
Bragi e Madeleine retornaram a sala imediatamente, contudo havia algo de diferente em Madeleine, ela parecia estar desperta,mas não estava mais ostentando todo aquele terror.
Loke imaginou que ou Bragi tivesse feito algo com a consciência dela, ou que ela estivesse em choque, pois já havia feito coisas do tipo em um vilarejo a muito tempo, e a expressão estúpida das pessoas começou a oscilar entre o que Madeleine demonstrava agora, e o que ela exibiu a pouco.

Bragi olhou em volta, pesou bem os fatos em sua cabeça por alguns instantes, e começou e chamou a atenção de todos:

- Bem, vamos agora começar a tratar do que nos levou a fazer tanto esforço para nos colocar a todos juntos, exatamente neste país.

***

Em Aesgard, as coisas estavam como sempre após a saída de Loke.
O ar estava ligeiramente mais frio do que o normal, quando você tem por referência que apesar das estações se repetirem também ali – sendo que isso nada tem haver com Sunna em seus ciclos anuais, na verdade no reino dos Ansjus e Wanus, isso ocorre por conta do Brosingamen passar continuamente de Freija para Loke e de Loke para Freija – quando você entra em um dos 12 Reinos, o clima reflete o humor do Deus ou Deusa que ali é Senhor.
Desta forma, se você por acaso viesse a entrar em Thrudsheim, a Terra de Thunnar, o lugar teria seus grandes momentos de Sol, que seriam igualados pelos nada menores momentos de tempestades elétricas devastadoras, fato este que reflete em muito o humor de Thunnar, que varia entre uma gargalhada frenética, e um urro do mais puro ódio.
Se entrasse no Breidablik de Baldhur, o local seria de eterna beleza e você veria na mesma época, o ano todo, tanto flores como frutos por toda parte, de tal forma que tudo seria um misto de harmonia e beleza contínuas, e estranhamente todas as coisas ali emitem luz, e todos os seres dali são bélicos mas disciplinados de tal forma, que pareceriam mais com nobres em eterna confabulação sobre tratados e gumes de espadas antigas.
Em Glitinik, veríamos deliberações sem fim sobre o valor de cada coisa, e sobre a necessidade de tudo o que ali se encontra, como se para existir cada coisa ali tivesse que ser pesada, comparada e analisada, e por fim tudo teria que passar pelo crivo de Forsetti, para que seu local correto fosse determinado.
Volholl dispensa apresentações, o barulho das eternas batalhas, com os guerreiros se regenerando eternamente e se preparando para combates ainda maiores, pode ser ouvido em toda parte.
Idallir é um caso a parte, o Caçador muitas vezes vai a procura de presas perigosas em terras longínquas e seus subordinados pensaram mais de uma vez, que sua atual empreitada talvez tenha sido a última. Contudo Uller o esposo de Skad e amante de Hella, nada teme em reino algum.
Em todos os reinos, a regra se perpetua dia a dia desta forma, e somente em momentos difíceis ou demasiado estranhos, esta regra muda.
Curiosamente, duas coisas tem insistido ultimamente em ser exatamente as mesmas em cada um dos 12 Reinos de Aesgard.
Se por um lado todos gozam da paz e do conforto de não terem que se preocupar com algum ato impensado e catastrófico produzido pelo terrível Deus do Fogo, por outro lado algo tal e qual um marasmo muito grande e um estupor tem sido notado em cada rosto, conhecido ou não nas terras divinas.

- Jut, você já terminou as suas tarefas?
- Ora Glad, que diferença faz, se não fizer hoje, concluirei amanhã, e de toda forma as coisas continuaram as mesmas, se forem feitas ou não!
-Pare de dizer asneiras, as forjas de Hemo precisam do metal para os reparos desta época, antes que os ciclos mudem e tivermos que lidar com algum Jotun ou Bardas, que vier atazanar algum dos Reinos!
- Bah...Até hoje os que vieram eram bem mirradinhos comparados com o que nós víamos...Eu acho até que os Jotuns desistiram e foram fazer coisas mais importantes como esculpir gelo, ou escorregar em suas imensas montanhas geladas!
- Jut, você é impossível...Já vi você atravessar a noite apressado para concluir suas tarefas, sem se queixar uma única vez...E essa é a primeira vez que vejo você reclamar que está com preguiça! Hemo vai arrancar sua cabeça se você não levar esse metal logo para ele!
- Hemo isso...Hemo aquilo...Isso é um saco! E eu acho que ele deve estar muito ocupado com alguma coisa, estava com o olhar sombrio e com seus sentidos voltados para Thrimheim horas a fio  3 dias atrás, e então sumiu e até agora ninguém foi capaz de dizer o que aconteceu ou onde ele foi?
- Isso é ruim! Hemo tem a  habilidade de ouvir a grama crescendo e de enxergar absolutamente tudo que ele quiser. Se o Grande Guardião do Bifrost se ausentou de seus deveres eternos como vigia da ponte sagrada, isso só pode significar encrenca e das grandes!
- Quando a encrenca chegar, eu tomo minhas medidas...Agora vou procurar um local para poder tirar um reconfortante cochilo a sombra de alguma macieira!
- Ah, essa é boa...Duvido que você consiga!
- Ah é, e porquê?
- Quando eu estava transitando com minhas cargas de visgo para o Breidablik, um dos tralls dali me disse que as maçãs sumiram, e que os pés estavam cobertos de neve.
- E o que um servo entenderia de maçãs, você pode me dizer?
- Ele entenderia muito, já que é um jardineiro!
- Umpff...Estou começando a ficar incomodado com isso!

Ambos os Carlls acima tem toda razão em estar apreensivos, embora não compreendam em nenhum momento o quanto sua apreensão poderia ser preocupante, uma vez que tudo o que ocorre em Aesgard, ou em qualquer dos outros 7 reinos a volta de Midgard, afeta-a diretamente.
E uma vez que o sopro de uma brisa mais fria do que o normal levou o ar a gerar um perfeito floco de neve como formato curioso de um padrão em octaedro com uma Runa Isa ao centro, que foi flutuando pelo céu de Paris, passando por alguns pássaros em migração, que ao chegarem perto do floco de neve, fugiram em disparada na direção contrária.
O floco de neve foi levado por um vento gélido, que ampliava seu alento glacial enquanto empurrava mais e mais graciosamente seu passageiro esbranquiçado pelo ar.
Em dado momento, o sopro gelado empurrou o floco de neve para dentro de uma certa janela que por azar se encontrava aberta.
E foi se deslocando, perdendo altitude, aproximando-se de uma cama, onde dormia totalmente inocente dos fatos, uma conhecida mútua de todos nós.
Em seus sonhos ela docemente estava se deleitando em alguma praia, onde as ondas idílicas eram belas, e os drinks de “cuba-libre” que tanto amava eram gratuitos.
Ela tinha um estranho encosto pra seus pés naquelas paragens idílicas.
Nada mais e nada menos do que a cabeça de Loke, que ela insistia em escoicear sempre que se sentava ou se levantava.
Deleitava-se com aquilo e procurava sempre espalhar areia quente da praia sobre o cocuruto de seu “encosto de pés”.
Quando o floco de neve tocou a testa de Newdred, o sonho imediatamente mudou para uma paragem gelada onde ela guiava Ruskis Siberianos, e os chicoteava fazendo com que eles fossem e voltassem centenas de vezes pelo mesmo caminho, indo e voltando.
E a cada vez que passavam pelo meio exato, os pés dos cães e o trilho do trenó, raspavam um corpo acorrentado ao chão, que berrava de dor, causando imenso prazer nela.
Seus olhos no sonho eram vermelhos como sangue, e a pupila estava branca como a neve.
Em seus sonhos ela fazia os cães passarem vezes e mais vezes, até desfalecerem sem vida, o que a fazia então sair do trenó e pegar um bloco de gelo, que usava para golpear sem parar a cabeça, já avermelhada e suplicante do corpo que jazia ao chão.
No último golpe ela acordou assustada com um urro que nada de humano parecia ter.
Recolheu-se então ao canto da mesa, e reconheceu mais inconscientemente do que racionalmente, que o urro vinha de sua garganta.
Ergueu-se, arrumou os cabelos e maquiou-se em frente ao espelho na cômoda do quarto.
Saiu para o corredor em direção ao elevador, cruzando com uma copeira que por ali passava, com uma bandeja em suas mãos.
A copeira estancou aterrorizada ao olhar em seus olhos, e ela não lhe deu a menor atenção.
Pegou o elevador e começou a descer, sorrindo sempre, e sempre retocando a maquiagem com um estojo que trazia na bolsa.
Saiu do elevador e atravessou o saguão do Champs-Elysees, causando um certo frenesi tanto em um gerente que por ali se encontrava, quanto nos hospedes que estavam chegando.
Do lado de fora, ficou parada por um tempo, sendo que após alguns segundos abriu os olhos e passou a sorrir, com a certeza renovada do caminho que deveria seguir.
Pôs-se a caminho, passando por um dos cafés que Bragi tanto amava naquela região, onde havia uma enorme superfície refletora que chamou  a atenção de alguns estudantes que ali estavam reunidos.
Todos pararam o que faziam para observar a Mademoseile que caminhava como se flutuasse, e que estava com os olhos tão rubros quanto sangue!
Em seu caminho, nem sequer cogitou a idéia de pegar um táxi, simplesmente caminhava com passos rápidos, que depois começaram a ficar mais e mais espassados.
Em poucos instantes uma caminhada de alguns momentos, veio a se tornar um exercício de ginástica olímpica e por fim, um verdadeiro salto para o “infinito e além”, contudo ela sequer parecia fazer esforço e seus movimentos não eram jamais calculados, era algo quase automático.
Newdred sequer estava realmente acordada, agia tal e qual uma sonâmbula, e em seus ombros uma fina película de neve estava se formando.
Naquele exato momento, Bragi estava concluindo seus pormenores sobre um aviso que havia recebido.

- Bem, concluindo minha exposição, um forte desequilíbrio está acontecendo neste exato momento em Aesgard, e parece já estar se espalhando pelos 12 Reinos!
- Quem foi que lhe deu esta informação Bragi? – perguntou Loke.
- Foi o Guardião! Ele não pôde enviar mais do que algumas palavras, parecia estar envolvido em algum tipo de embate! 
- Haimdall com dificuldades para combater alguém? Essa é novidade pra mim! Eu já combati contra ele pelo controle completo do Brosingamen, e posso dizer com todas as letras que mesmo Thunnar não teria êxito se ele estivesse sendo fortemente motivado!
- Desculpem a minha ignorância, mas o que motivaria fortemente um Deus? – questionou Arícia.
- EHEHEHEHEHEH...Freija, ela o motivou como motivou os anões a fazer o Brosingamen para si!
- Ah, agora deu pra entender...Eu já a vi...!

E ao dizer isso, ficou resmungando para si mesma que os homens deviam ser todos iguais, Deuses ou Mortais.
Loke perguntou mais detalhes e ficou perplexo quando soube que entre as poucas coisas que Hemo pôde enviar a Bragi, havia um alerta sobre frio em toda parte.

- Bragi, porquê entre todos os Deuses e Deusas, ele somente conseguiu chegar a você?
- Se entendi bem tudo que ele pôde transmitir, e levando-se em consideração a dificuldade de enviar coisas inteligíveis, eu suponho que não era possível enviar para ninguém no Reino Divino, e ele teve que encontrar alguém apto que não estivesse lá para receber a mensagem!
- Mas fica  a pergunta do quê poderia estar interferindo com o poder dos Deuses nas terras Divinas?
-Provavelmente teremos que atravessar o Bifrost, e conferir com nossos próprios olhos, o que está se passando por lá!

Ao ouvir isso Erick ficou temeroso do que pudesse vir a acontecer com o pai, já que logo quando conheceu os Deuses não estava nada contentes com a maneira como ele resolvia todas as coisas, mas haviam ficado extremamente aliviados com o fato dele estar restrito a Midgard.
Contudo ele não pôde dar vazão a seus pensamentos, sua mente ficou subitamente nublada, e uma presença medonha e assustadora começou a se formar como plano de fundo em seus pensamentos.
Sentiu a ameaça se aproximando.
Apontou para a janela que dava acesso a rua em frente ao local onde estavam, mas não teve a oportunidade de avisar.
A janela se estilhaçou, e um vulto similar a um pequeno Bardas se moveu tão graciosamente e tão violentamente, que arremessou a todos pela sala.
Movia-se diretamente para Loke, e cantava um canção contínua, sôfrega, desesperada, desafinada, desalinhada e tão deselegante, que cada nota musical causava o efeito de um chicote diretamente nos tímpanos das pobres vítimas que eram expostas a ela.

- Newdred? É você? O que está avendo....AAARRGGGHHHH!!!!!!

Loke nem teve tempo para desviar-se, uma ponte de gelo projetada dos dedos congelados, porém flexíveis, das mãos da mãe de Erick, atravessou sua coxa direita.
Bragi não pensou duas vezes, com um gesto o local foi engolfado por uma onda de vento e os canos das paredes estouraram ao mesmo tempo.
O vento combinado com a água, se abateram sobre Newdred, que imediatamente congelou a água formando a sua volta um bloco de gelo, que não cessava de aumentar com o contato com  a umidade.

- MÃE? Alguém faça alguma coisa...Ela vai morrer ali dentro!!!

Ele correu para o bloco com pedaços de madeira em suas mão para tentar quebrá-lo, mas Erick não poderia fazer contra gelo místico, e para sua sorte foi impedido pelo pai, que o agarrou, e abriu o chão com um terremoto que engolfou tudo, dando a todos tempo suficiente para saírem dali, pela lateral daquele local, que não foi sequer tocada pelo tremor.

- Temos que sair daqui o quanto antes, ela vai se soltar logo!
- Mas ela vai morrer ali dentro!
-Ah, para com isso moleque, Newdred está sob efeito de encantos antigos ligados ao frio. Algum Eatin deve estar por trás disso, ela sequer foi tocada pelo tremor que causei e o frio só está aumentando a resistência do que está com ela!
- Tem razão Loke, e provavelmente os encantos de Aesgard contra você devem tê-la feito de alvo do Eatin em questão.
- O que é um Eatin? – perguntou Madeleine.
- É um Nobre entre os Jotuns. Alguns deles são muito velhos, e de tal antiguidade que seus meios divergem muito daqueles usados pelos Ansjus ou pelos Wanus, daí o caos gerado pelo contato dos estilos diferentes de magia.
- Eu acho que fizeram isso a ela, por vingança, coisa que é muito comum de muitos quererem contra o deus do Fogo, não é mesmo Loke?
- Aham...Quer dizer...Ora Bragi, você está sendo exagerado...Bem...Eu...
- Vamos logo, temos que chegar até a Torre Eifel antes do final da Tarde!
- Porquê a pressa?
- Vou gerar uma ponte para Aesgard no topo dela!
- Ah...Bom, já que é assim!

Correram o mais rápido que as pernas de Arícia e de Madeleine permitiram, e para evitar mais olhares furtivos, foram de táxi até a Torre.
Arícia estava curiosa quanto a Madeleine e sua ração tão natural frente ao que ocorreu, manifestando somente uma leve curiosidade sobre uma ou outra coisa, parecendo entender tudo o que se passava. E também, ela havia notado que Erick percebeu antes de todos que o ataque estava por acontecer, ao que tudo indica ele havia herdado algumas “vantagens aesgardianas” por ser filho do deus do Fogo.



***
Nem bem haviam entrado no táxi foram obrigados repensar os próximos passos.

Havia uma turba andando sem direção aparente na rua, indo e vindo, com expressões tolas em seus rostos, muitos deles inclusive com panfletos presos ao peito -  e diga-se de passagem, alguns dos panfletos iam da garganta até a altura dos joelhos.


Erick, Madeleine e Arícia olharam simultaneamente pela janela do táxi, e observaram os flocos de neve que caíam de uma maneira sutil e levemente bailando no ar.

Eles ficavam acima das pessoas nas ruas, e ao sabor de uma brisa que rodopiava a volta delas, circunvagavam suas cabeças e pousavam sobre as mesmas, causando um efeito de arrepio perceptível na contração leve causada nos ombros – talvez involuntária pensavam – seguida então da estupidificação das feições e do olhar vazio, fixado ao que parecia em absolutamente nada.

- Mas que diabos está acontecendo aqui? – perguntou estranhamente inquieta Madeleine.

- Nada...menina...o diabo não está lá fora...o diabo está perto, mas não está nos abençoados que caminham no louvor...

Bragi e Loke não fizeram a menor menção de terem ouvido as palavras do taxista, apenas continuavam a olhar para frente.

Erick furtivamente tentou verificar se as portas estavam travadas, pois aquelas palavras tinham um quê de lúgubre, como se houvesse uma ameaça pendente no ar.

Madeleine estava exatamente do mesmo modo como havia entrado no táxi, e que era exatamente o contrário do que Arícia havia notado, desde antes dela ficar a sós com Bragi, ou seja, ela estava elétrica, atenta e não havia um tom lacrimoso ao final de cada frase ou interjeição feito por ela.

Arícia por sua vez, estava tentando se lembrar de algumas instruções que Hlock havia lhe dado sobre proteções mágicas, mas ainda era muito confuso lembrar-se de todos os detalhes, e Hlock já havia alertado que o básico somente seria realmente aprendido no decorrer dos anos, para que ela pudesse manejar cargas mais violentas contidas nas partes ocultas do conhecimento.

De certo que ela não poderia fazer nada muito espetacular, mas pensou que mentalizar um Rune Bind enquanto espetava o dedo com a unha para causar um pequeno sangramento, para canalizar os efeitos para o que tinha em mente, poderia ser útil.

No entanto seus dedos estavam duros como se estivesse no Alaska, e ela se deu conta que os outros no banco de trás, onde estavam, também tremiam. Somente Bragi e Loke não tremiam, até mesmo o motorista de táxi, com seu jeitão sinistro, estava tremendo, e para falar a verdade ele tremia muito mais do que os três.

Pouco antes de Arícia terminar o que estava fazendo, o motorista recomeçou seu monólogo monótono:

- Os abençoados agora não estão mais no inferno...Todos eles tem a certeza de que Genistrúcio olhará por eles...É uma honra...É um dever morrer por Genistrúcio...Ou matar por ele...GLÓRIA A GENISTRÚCIO!!!!

E virou o volante com tudo, acelerando e arremetendo contra um poste ao lado direito, passando por cima de muitos da multidão de abobalhados, que andava sem destino pela rua.

Para sua total e fanática felicidade, morreu imediatamente quando ocorreu o impacto, pois miraculosamente o Airbag não inflou. Contudo, para a total decepção em sua face em seus  momentos finais, nem um arranhão se fez pronunciar nos alvos de seu recém renovado gélido fervor religioso.

- Por que cargas d’água você foi provocar aquele maluco????? – berrava Loke com Arícia.
- Do que está falando? A única coisa que fiz foi tentar usar uma proteção que Hlokk havia me ensinado. Você não está insinuando que...........
- Foi isso mesmo Arícia – completou Bragi – O motorista apalermado, estava sem uma única gota de vontade dentro de si. Estava cumprindo seu dever de motorista, nos levando onde havíamos pedido, mas não estava pensando em nenhum ato de fervor religioso...Até você tentar se proteger do frio usando Kennaz!
- Já não basta eu ter que tentar me passar por outra coisa, o tempo todo, para disfarçar minha presença aqui. Estava quase me convencendo que era um ganso selvagem...Tudo indo direitinho...E daí vem o gênio aqui e invoca a mim mesmo no banco de trás...E em seguida o sujeito endoida de vez!!!!!!!!!
- Pai...Eu percebi que você estava mais que do que o normal. Mas...
- Chega de conversa...Fomos notados pela turba!

E era fato, que ao invés de caminharem sem eira e nem beira, indo e vindo, começaram a se mover lentamente em direção ao carro batido, já com uma considerável camada esbranquiçada de gelo, sobre os ombros e a costas.

A semelhança com o estado em que Newdred se encontrava, e com o estado em que aquelas “pessoas” estavam, era evidente.

Correram a partir de então.

Após os primeiros passos perceberam que muito mais gente estava sob efeito dos flocos de neve.

Para surpresa de Madeleine, Bragi começou a praguejar baixinho, enquanto balbuciava algo.

Loke  que estava ao lado dele, olhou para ele incrédulo ao ouvir o que ele dizia.

Então ele colocou as mãos nos ombros de Bragi, fez sinal para que todos parassem, e cerrou os olhos, em que ao mesmo tempo, objetos a distância começaram a explodir, o que fez a turba – que em condições normais estaria se dispersando e correndo para todos os lados – se acumular em volta desses locais.

O curioso é que muitos ficavam com expressões aliviadas perto das labaredas, mas a maioria que também tremia menos, tentava extinguir o fogo com gestos mecânicos, sobretudo aqueles que estavam com camadas de neve e gelo tomando partes maiores de seus corpos.

Em seguida, Loke abriu os olhos sorrindo e o chão e disse:

- Cuidado como primeiro degrau...Ele é muuuuiiitttooo   longo!!!!
- O quê ???? – disseram em conjunto Madeleine e Arícia.

E quase na mesma hora, o chão cedeu sob os pés de todos, e foram parar nos esgotos!

- Merde...Je déteste cet !!!!!
- Ei, eu estou entendo o que ela está dizendo, mas isso não foi português????!!!???
- Acalmem-se as duas...Quando estive sozinho com Madeleine, eu mexi as coisas de tal forma que ela possa encarar seus medos, da maneira mais natural que existe...E para que as brigas diminuíssem, fiz com que todos pudessem se entender, apesar das línguas diferentes!
- Ah...Errr...Eu meio que tinha uma idéia sobre isso......
- Ahaaa...Eu sabia que você tinha feito aquilo...Então o deus do fogo, não é o único deus maquiavélico em Aesgard, afinal de conta... – Celebrou Loke.
- Ora Loke, já se esqueceu do que Odin fez para obter o Mead da Sabedoria???
- Não...Não se esquece um ato daqueles...Os requintes de detalhes...As confusões...EHEHEHEHEHEH...As vezes eu acho que Odin sente falta disso...
- Se ele sente ou não falta disso, agora não é a hora mais indicada para ficar discutindo...Temos que continuar pelos esgotos até a Torre.
- Pai...O que estava acontecendo lá em cima???

E Loke e Bragi, começaram a explicar da forma mais simples que encontraram, a respeito dos efeitos causados pelos Eatins antigos, e de como a realidade muda quando qualquer um deles – e mesmo quando qualquer deus ou deusa de Aesgard – resolve interferir por qualquer motivo, no contínuo espaço temporal em volta de Midgard.

Disseram eles aos três, que Midgard é como um plano de existência, feito das várias faixas de vibração que advém dos outros seis reinos com os quais tem contato direto, e que isso torna o tecido da realidade muito maleável, e facilmente vitimado pela dissolução, quando a harmonia é quebrada.
Os Ansjus e Wanus, vigiam aquilo que para nós são os dias e as noites, procurando por brechas e locais onde o equilíbrio é quebrado, pois normalmente penetram criaturas ou efeitos indesejáveis em locais assim:

- Isso me lembra um certo Warms, com os quais tivemos que lidar a algum tempo, não é Loke?
- Aham...Isso, isso...Mas agora não é o momento mais adequado para lidar com esses detalhes...afinal temos coisas mais importantes para fazer e......
- O que ele fez? Quando começa com esses discursos vazios intermináveis, é quase como se estivesse assumindo a autoria ou culpa por algum desastre injustificado e horrível!
- Impressionante, Arícia...Tão pouco tempo em contato com ele e já observou e aprendeu tanto...Hlokk merece as congratulações de Freija por ser tão zelosa!
- Bah...As pessoas não sabem perceber a magnanimidade de meus atos, e como as coisas mais produtivas e benéficas vem com os mesmos!
- Pai, eu sei que está falando de mim...Mas precisava ter causado uma cratera de cinqüenta metros com o Mjoullnir para me encontrar?
- Cratera? Cinquanta Metro? Mjoullnir? Como isso aconteceu? – Agitou-se Madeleine, encarando Loke com os olhos tremendo levemente.

Arícia perguntou discretamente a Erick, o que estava errado com Madeleine.

Erick por sua vez disse que a única coisa em que conseguiu pensar, foi que talvez Bragi tivesse entrado na mente de Madeleine para causar um efeito de rebote.
Ao perguntarem a Bragi, enquanto chapinhavam pela fétida água que sobrava na lateral dos limites da elevação do esgoto, onde estavam, ele foi um pouco reticente.
Disse aos dois, o mais discretamente que podia no momento, que a forma menos agressiva de ajudar Madeleine naquele momento, dadas as condições e o pouco tempo, era fazer com que ela adquirisse outra fobia, além das que já tinha:

- Medo de ter medo?
- Não, “pavor” de sequer pensar em ter medo!
- Mas isso significa que o tempo todo ela está com medo de tudo...Mas que abomina a tal ponto o medo, que se expõe a tudo que lhe causa medo, por mais que a idéia seja assustadora! – Concluiu Erick.
- Especialmente se a idéia for assustadora, ela irá contudo para confrontá-la, pois estará imaginando olhos observando-a do ponto cego em que ela não puder se voltar para enxergar, o tempo todo!
- Por isso eu disse que ele foi maquiavélico! – berrou Loke, que estava mais a frente, pois a tudo estava atento.

Madeleine sequer havia entendido do que ele falava, mesmo porquê estava em um dilema moral imenso naquela hora.

Devia estancar paralisada com a teia de aranha a sua frente e sua imensa proprietária, com coisa de uns 12 milímetros –mas algo poderia cair sobre sua cabeça - correr na direção oposta – mas poderiam haver indizíveis outras coisas, no breu do esgoto – ou passar por cima, correndo o risco daquela aranha se tratar de alguma espécie de aracnídeo mutante ninja, capaz de saltar 98 vezes seu comprimento e picá-la até a morte, o que a julgar pelo tamanha da aranha em comparação a Madeleine, deveria levar qualquer coisa como 37 anos, de ininterruptas picadas.

Isso tudo levou alguns instantes, passando pela mente de Madeleine, e como aquilo que mais a assustava era justamente passar por cima dela, o gatilho mental de Bragi, levou-a a concluir que deveria passar por cima da aranha, esmagar a teia e reduzir a pó sua dona.

Contudo o frenesi de esmagar a aranha, talvez tenha tomado muito mais tempo do que seria necessário, pois Erick e Arícia tiveram que carregá-la pelos braços e pernas, enquanto ela se agitava e se debatia.

Quarenta minutos depois, pararam perto de uma escada, que dava acesso a uma saída do esgoto:

- É aqui! Antes de subirmos vamos combinar o que faremos lá encima, para chegar a parte mais alta da Torre, sem termos que incendiar a população de Paris no processo.
- Bragi...Desculpe se a  pergunta é muito óbvia, mas exatamente porquê as pessoas estão agindo daquele jeito? Parecem um bando de zumbis!- Perguntou Erick.
- Bem, de certa forma são zumbis, já que estão quase se tornando Draukkars completos!
- Brrrr...Eu já vi alguns, a lembrança não é nada agradável! – Disse Arícia – Mas como estão ficando tantos daquela forma?
- Bem, vocês devem ter ouvido quando o taxista estava se tornando um picolé humano, e começou a falar de um tal de Anastácio, não é???
- É “GENISTRÚCIO” Loke! – Corrigiu Bragi.
- Certo, certo...Dá quase na mesma...Bem, como eu dizia...Isso é mais uma daquelas religiões feitas como em receitas de bolo, onde sempre aparece um sujeito que salva todos os outros sujeitos de uma região, que é vista como o mundo todo, através de algum sacrifício,que não tinha nada haver com o que causou o problema, mas que parece ser sempre aceito como fato inquestionável, por todos os adoradores, que no decorrer do tempo, vão ficando mais e mais parecidos com o subproduto de algum cientista especializado em “lobotomia”.
- Mas e o que isso tem haver com aquele sujeitos esquisitos?
- Essas religiões contém todas elas a semente de Jotuns e Bardas, cuja natureza é ou entrópica ou oposta ao equilíbrio de todas as coisas. São religiões que sobrevivem na maioria das vezes, do esgotamento dos fiéis, transformando a todos em sacos vazios.
- Eca...Que idéia detestável...E eles gostam disso realmente?
- Matariam para não ter idéias próprias, ou para ter certeza que não venham a nascer ou estarem vivas quaisquer pessoas que as tenham.
- Isso mesmo...Houve um período na história humana que foi marcado exclusivamente  por isso!
- Qual? – Perguntou Arícia.
- Você esta aprendendo com aquela Idisir metida que anda com aquele Berseker pra cima e para baixo não é? – interrompeu Loke.
- Sim, porquê?
- Porquê, sonsa desse jeito, eu não vejo como ele não ter tentando estrangular você! – respondeu Loke, irritado.
- Ora seu convencido...Eu só não rolo com você não chão de novo, porquê estamos no esgoto!

Arícia dizia isso com convicção, mas também sua convicção era igualmente grande, no imenso medo que lhe deu ao ser perseguida por um Loke sem cabeça, pouco antes de serem atacados pela mãe congelada de Erick, e bem como pelo fato de que Rauthiswulf ter tentado acertá-la com um sofá duas vezes, quando ela estava com preguiça de estudar..

- Loke está falando da Inquisição Arícia! – concluiu Bragi.
- Isso...E você consegue imaginar qual é o mecanismo para que um ser humano desça tanto assim na escala da natureza?- Retornou Loke.
- Não!
- Bem...Todos os humanos estão ligado a Midgard, obviamente, mas também se ligam a suas famílias pelos nomes que tem, e bem como a seus conceitos sobre o que são e o que fazem.
- Sei...E daí?
- Daí que, há também o vínculo que cada um porta com suas tradições originais. Cada pessoa em teoria deveria ter um caminho próprio que lhe servisse de guia e de farol, para que pouco a pouco, em uma ou muitas vidas, dependendo da lentidão de cada um, acabassem alcançando uma das moradas em Aesgard, mesmo que até um certo ponto somente as vissem pelos olhos que a educação e cultura humanas, de cada época, acabasse por formá-los.
- Hlokk já me falou a respeito disso. Ela comentou que há um tipo de ponto de ligação entre alguém e o seu destino final, que pode mudar de acordo com a falta de dignidade, ou presença dela.
- Isso, isso, isso...Essa “sombra que segue a pessoa”, é o vínculo da pessoa com o que de melhor poderia se esperar dela.
- Logo, quando algo artificial é aceito por uma pessoa, a ponto de afogá-la completamente nisso. A “sombra” se retira, “caminhando” lentamente de volta para o local para onde a pessoa estaria indo após a vida,  no mesmo ritmo em que a pessoa vai ficando mais e mais fanática, até que o vínculo entre ambos é desfeito.
- Isso é como um “morto que se move”, um Draukar, mas a pessoa não passou pela morte e voltou, ela simplesmente passa por uma morte em vida. Qualquer traço de vida e calor, de alegria, e de livre pensar, é uma ameaça ao processo, e deve ser extirpada desta pessoa, para que ela possa se agregar ao que está adorando!
- Isso acontece com todos que fazem parte dessas religiões?
- Mas é claro, porquê acha que os olhos deles não tem brilho vital, e são tão limitados mentalmente, ou mesmo porquê vão ficando cada vez mais parecidos com Trolls, no decorrer do tempo, com aquelas costas arcadas e aspecto peculiar pouco apreciável?

Concluíram então as explicações e começaram a planejar a subida até o topo da Torre Eifeil.
***
Não foi uma das melhores idéias que Bragi já teve!

As ruas estavam apinhadas de pessoas, arrastando seus pés, andando de um lado para o outro, sem ter realmente algum rumo.

Muitas murmuravam para cima ou para si mesmas, mas todas elas estavam com os olhos vidrados que vez por outra, se fixavam no céu.

Quando algum dos flocos de neve que teimavam em continuar a cair solitariamente, flutuavam e tocavam um deles, o arrepio o fazia sacudir-se inteiramente e de uma tal forma, que poderia realmente parecer uma convulsão, se não fosse já tão estranha a aparência repelente que estavam ostentando.

O caso é que muitos deles já estavam quase completamente embranquecidos de neve e gelo, e os casos mais agudos cessavam o constante caminhar, e ficavam parados tais e quais estátuas de alabastro, de uma forma tão sinistra que qualquer desavisado que por acaso topasse com um deles, ao confrontar o olhar dos mesmos, ficaria horrorizado instantaneamente.

O que mais dava medo nos acompanhantes de Bragi e Loke, era a sensação clara de que não estavam parados lá sem motivo, pareciam mais estarem guardando o local, como vigias.

- Loke estamos com algumas dificuldades, e não tenho certeza de que minha maneira de resolver as coisas poderá ser a mais indicada para nos levar onde queremos!
- O que você está querendo dizer com isso Jean-Marie? – Perguntou Madeleine, com os olhos esbugalhados.
- Bem...Digamos que eu tenho um manejo todo social e uma certa etiqueta refinada para tratar com tudo que faço, e por causa disso.........
- Ora...Vamos logo...Diga a eles que vão perceber em dois minutos, se você tentar usar a arte da maneira como sempre faz, para nos levar até o Jules Verne, no segundo andar da Torre!
- Pai, calma, não precisava ser tão brusco!
- Cada vez que ele diz alguma coisa, o resultado mínimo é sempre esse, parece que vive pra isso!!! – Desalentou-se Arícia.
- Mas a coisa acontece exatamente dessa forma. Sou muito formal no que faço, dada a natureza de quem realmente sou, e por causa disto, meus meios mais discretos não serão eficientes, e se tentar os meios mais bruscos, o que quer que seja que está causando isso, vai mirar sua atenção com mais entusiasmo em todos nós, e teremos ainda mais problemas para chegar em Aesgard!
- Logo, sobrou para mim, “...Loke o Grande...”, campeão dos fracos e oprimidos, líder de muitos, sábios, sagaz, poderoso, deus do fogo....
- Err...Pai, pule a parte do discurso, senão não chegaremos na Torre antes do próximo Midsummer!
- Ora...Um deus não pode nem citar suas virtudes de quando em quando que as pessoas já começam a se intrometer e dar palpites? Será que não percebem a magnanimidade do momento, a eloqüência que me inspira nessas horas, o poder da prosa e do verso, a capacidade incólume de ir além de todos os limites.........
- Isso...Ir além de todos os limites...Já passou deles a mais de meia hora quando começou a tagarelar sem parar...AAARRRGGGGHHHH...
- Calma Arícia...Loke precisa de um tempo para colocar a cabeça no lugar...Principalmente depois que ele eventualmente a perde!
- Eca...Eu ainda me lembro nojo que me deu de ver aquilo!
- Detalhes, detalhes, vocês somente pensam nas partes pequenas......

E Loke, inacreditavelmente, deteve-se em seus eternos discursos megalomaníacos com um sorriso de malevolência infinita no rosto, e com os olhos vidrados no vazio:

- É ISSO!!!!
- Oquê? Do que está falando?
- Já sei como entrar na torre, passar pelos picolés zumbis babões, e pelos “leões de chácara” gelados!
- Eu disse que ele somente precisaria de um tempo! Então, qual o plano?

Loke puxou Bragi para perto de si e explicou o plano!

Discutiram os detalhes, falavam rapidamente mas aos cochichos como se não quisessem que ninguém além deles mesmos soubesse o que iriam fazer.

Vez por outra olhavam para cada um dos três que os acompanhavam, e quando os olhos de Loke pousavam sobre Madeleine, ele sorria ainda mais:

“...Eu acho que não vou gostar nenhum pouquinho disso....” – pensava Madeleine com uma pontada de temor no coração!

Quando terminaram de confabular, expuseram aos outros a idéia de Loke, que foi imediatamente recusada em unanimidade, mas dada a necessidade teve que ser empregada:

- EECCCAAAAA...Eu sabia, eu sabia, eu sabia, eu sabia...Eu sabia detestaria isso!!!!

Esse foi um grito repetido por aproximadamente 200 vezes, que durou coisa de 15 minutos, durante os quais os tons foram abaixando e modulando minimante e paulatinamente, até atingirem a freqüência de um guincho, enquanto os 5 mais e mais assumiam a forma de roedores!

Se um humano os ouvisse, escutaria coisas como “...Scrriiii, iiii, ish, scrrii, scrrii, scrriiii...”, para todos os propósitos de podermos acompanhar o plano de Loke, procuraremos ouvi-los então como se estivessem em suas respectivas formas originais:

- Eu estou nojo de mim mesma!!! Não suporto meu próprio cheiro!!!!!!
- Cheiro? Cheiro? Eu quase roí um inseto morto, quando fiquei distraída!!!
- Pai...Por quanto tempo teremos que ficar desse jeito?
- Acalme-se Erick, não será por muito tempo, ficaremos desse jeito até conseguirmos chegar no Jules Verne, e podermos subir com mais segurança!
- Isso...Com estas formas poderemos passar com maior sucesso, e com o menor número de baixas possível!!
- Baixas? Como assim baixas?
- Bem, Arícia, não seria possível enganar com perfeição quem está por trás disto, mas desta forma nos tornamos alvos mais difíceis de matar, e mais rápidos e ágeis, e passaremos despercebidos a maior parte do tempo!
- Sei, sei......!!!!

Subiram pela escada, correndo de quatro patas e as vezes olhando furtivamente para os lados, como todo bom roedor faria.

Se o leitor já tentou apanhar um rato, saberá de imediato como podem ser rápidos e ágeis, parecendo saber exatamente para onde você não quer que eles vão.

Os “zumbis gelados”, chegavam a vê-los, mas somente uns poucos deles faziam menção de ir atrás, com aquele jeito desengonçado de andar.

Contudo os “gárgulas de gelo”, lentamente começaram a ganhar movimento ao mesmo tempo que o estranho grupo de ratos, corria e se aproximava da Torre.

Quando o primeiro roedor chegou a menos de 5 metros da calçada que dava acesso a porta principal, um dos “gárgulas gelados”, com uma velocidade anormal, pulou sobre o mesmo com os dois pés, espatifando o roedor.

Este por sua vez, explodiu em uma nuvem fétida e amarelada, que ao tocar na carapaça de gelo, ficava aderente como cola, o gárgula era forte, mas era tal e qual tentar partir borracha ultra elástica, e seus esforços não resultavam em nada.

Outro “gárgula” aproximou-se e tentou acertar a nuvem aderente, não para ajudar o primeiro e sim para destruir a nuvem, o efeito contudo foi igual ao que ocorreu com o primeiro, na verdade a nuvem aderente parecia expandir em tamanho ao mesmo tempo que tomava contato com a carapaça gelada dos gárgulas.

Em pouco tempo todos os gárgulas se amontoavam em volta da nuvem, e tentavam estraçalhá-la,  mas isso somente resultou em uma ridícula cena digna dos “Três Patetas”, onde um espetava os olhos do outro, enquanto um terceiro colidia com a cabeça no plexo solar do quarto, que já estava quase pendurado de ponta cabeça, nos ombros do quinto, e este em vias de despencar sobre o sexto, sendo que mais e mais “gárgulas gelados” vinham se amontoar.

Ao entrar na torre, os 4 roedores que sobraram seguiam o líder, e desviam da verdadeiramente imensa quantidade de “draukars gelados”, que amontoavam-se na parte de baixo da Torre.

Correram então em uma certa direção, e deram de cara com uma entrada de serviço, onde havia um elevador de cargas pequenas, que era usado para enviar objetos  medianos verticalmente pela Torre Eifeil, inclusive para o restaurante Jules Verne.

Tão logo entraram, o roedor líder fez um gesto com sua pata dianteira, e o elevador moveu-se, indo para o segundo andar.

Ao chegar lá, a porta se abriu e os 4 roedores moveram-se o mais rápido possível, em direção ao banheiro, onde não havia um único “draukar gelado”, e ali chegando começaram a mudar, retornando rapidamente a suas devidas proporções.

- Ah....Que alívio! Já estava começando a pensar que a vida seria perfeita se eu tivesse muito queijo e um cantinho sujo e escuro para ficar! – falou alegremente Erick, enquanto observava o movimento irritante e contínuo que Arícia fazia. Parecia que ela estava querendo arrancar um pedaço da pele de seu ombro direito.

- Arícia o que há com você? Está com urticária?
- Eu...AARRGGHHH...Eu não paro de me coçar...Tem alguma coisa me mordendo, e fica coçando o tempo todo! É uma tortura!!!
- Acalme-se, talvez eu possa ajudar, tenho uma boa idéia do que está acontecendo!

E quando Bragi observou com calma para o ombro de Arícia, ele pegou algo muito pequeno que estava ali, com a ponta de seus dedos, e jogou no chão, ao lado de todos!

Ao ver aquilo, os outros três observaram o local ao mesmo tempo, e depararam-se com um ponto preto, que começou a se esticar e depois a inflar, com suas enormes patas se expandindo, as extremidades curvas, o corpo abaulado, olhando fixo e quando já estava maior do que um homem grande, encarou-os estaticamente.

O restante dos fatos é bem previsível:

Madeleine tremendo como um bambu em meio a um vendaval, avançando com um tamanco na mão direita, e com uma expressão de horror estampado no rosto!

Arícia berrou incessantemente enquanto apanhou um rodo, que estava caído próximo a porta do banheiro, e começou a bater metade no chão metade nas patas dianteiras do gigantesco inseto.

Erick, cobriu a cabeça com as mãos, e a balançava a mesma para a direita e para a esquerda, estranhamente como se estivesse encabulado com alguma coisa.

E Bragi simplesmente disse:

- Chega dessa brincadeira medonha Loke! Você vai matá-los do coração!

E o inseto fez uma expressão estranhíssima e bizarra, como se tivesse ficado aborrecido, começou a tremer muito, a sacudir de uma lado para o outro, e por fim, a figura de Loke ficou em seu lugar!

- Maldito! Era você! Porquê me persegue? Porquê não me deixar em paz??? – Arícia gritava compulsivamente enquanto batia em Loke com os punhos fechados.

- Calma, calma...Ei...Ai...Isso dói...CCHHHEEGGGAAAAA!!!!!!!!!

- Acalme-se Arícia, Loke disfarçou um rato de verdade para que parece com ele mesmo, e o lançou com um feitiço reativo. Os “gárgulas” morderam a isca, e ficaram todos presos. Talvez ainda estejam se prendendo naquela nuvem gosmenta, neste exato momento!

- Isso, isso, isso...Eu tinha que pensar em um local para ficar seguro. Daí eu lembrei que ratos tem pulgas, e então....
- Então você pensou que poderia me fazer de viveiro? Você é impossível!!!!!
- Ah...O reconhecimento por um trabalho bem feito...Isso realmente é música para os meus ouvidos!!!

Então, aproveitando que o segundo andar estava relativamente vazio, dirigiram-se todos para a parte mais alta da Torre, onde Bragi imediatamente começou a entoar os cânticos para trazer o bifrost.

Contudo, enquanto Bragi se esforçava por criar o caminho para Aesgard, algo estava deixando Erick preocupado:

- Não estou com um bom pressentimento. Eu acho que alguma coisa ruim está para acontecer!
- Ah, não...O que é dessa vez? Uma ave Dodô tamanho família, misteriosamente trazida a vida, para atazanar a nossa paciência?
- Eu...Eu acho que não...Parece...Sim...Isso...Parece que é..........

Não teve tempo de concluir o que estava para falar.

O ambiente foi envolvido por um som horrendo, tão nefasto como o grito dos inocentes  bombardeados em Dresden. Tão desgostoso quando o dissabor de perder um ente querido. Tão desesperado quando um naufrago em meio ao oceano:

- AAAAAAAAAAHHHHHHH...Que coisa horrível, está quase estourando os meus tímpanos! O que é isso? Uma Banshee? Uma das Filhas de Aeger que resolveu abandonar os oceanos para morar em Paris?

- Não Pai...Isso está parecendo...aaarrgghh...Com um bolero muito mal cantado, com a voz imitando um tenor de opera...aaaaaahhhhhhhh!!!

- Oh, não...Ela não...Não agora...Praga!!!!
Newdred avançou em meio a uma avalanche de flocos de neve congelados, cortantes como pequenas navalhas de gelo, em direção aos Cinco.

Ela na verdade mirava apenas um deles, aquele que justamente era impotente para impedir o seu avanço.

A avalanche desviou-se de Erick, acertou de leve Madeleine, retirou um pouco de sangue de Arícia, e soterrou Loke, com todo o seu peso, provavelmente picotando em milhares de pedaços seu corpo.

Em seguida, Newdred começou a pular o mais alegremente que seu rígido corpo gelado permitia, e com um sorriso de criança que acabara de ganhar doce, em sua face de gelo.

Contudo, a necessidade de exterminar Loke, que estava presente não somente nela, mas em tudo que estava congelado ou se congelando a volta de todos, era tão grande que o encantamento de Bragi passou despercebido.

Em um flash de pura luminosidade multicolorida, todos os cinco foram transportados para a fronteira com Aesgard, deparando-se com a entrada do Hagar de Himimbjorg, lar de Haimdallr.

Loke, saiu literalmente em dez viagens debaixo do gelo que havia sido transportado junto, e demorou mais do que seria o normal para ele em uma situação assim, pois o gelo não queria largá-lo e sempre que mexia nele, um novo talho aparecia em sua pele.

- Aaaíííííí...Essa coisa esquisita é afiada! Quase corou meu pulso denovo!
- Loke...Você conseguiu notar quando chegamos aqui?
- Espera um momentinho enquanto ponho fogo no que sobrou do gelo...Ah, isso...bem melhor agora...Vejamos...Você esta falando do ar frio demais para esta região de Aesgard?
- Não só disso, estou falando...Onde está Haimdallr?
- Ei...Ele nunca abandou o posto desde que a cidadela foi criada...Só uma vez quando foi fazer aquele serviço para gerar as castas humanas! Que raios está acontecendo aqui????

Enquanto os dois discutiam Erick olhava em volta, e seus olhos – assim como os de Madeleine e Arícia – se maravilhavam com tudo que viam. No entanto para Erick era mais intenso, parte de seu ser sentia que pertencia aquele lugar.

***
Himinbjorg estava mais quieta do que Loke se lembrava, na verdade ele não conseguiu identificar o som de ninguém atarefado com os costumeiros deveres que sempre consomem o tempo dos Aesgardianos.

Não se viam os Carlls passeando de um lado para o outro, administrando os trabalhos dos Tralls, e nem se viam em lugar algum os Tralls ocupados com suas intermináveis tarefas.

Loke olhou em volta e aguardou que Haimdallr estivesse disfarçado de algum arbusto ou alguma outra coisa, uma vez que ele também era um transmorfo, mas passados vários minutos, nada ocorreu.

Bragi por sua vez, já havia concluído que alguma coisa havia feito com o que o Senhor de Himimbjorg se ausentasse, e como o Gjllaghorn não havia estremecido os Nove Mundos com seu som, concluiu que não havia ocorrido nenhum ataque as muralhas do reino divino, pelo menos nenhuma que viesse de fora.

- Loke, temos que descobrir o que está acontecendo, e rápido! Você notou aquela encrenca em Midgard?
- Se está falando do fato de toda a Midgard, de uma hora para outra, ter entrado no culto ridículo ao “...altamente inteligente...” Genistrúcio, que se pendurou em uma árvore e se sacrificou em nome de seus seguidores, morrendo de pneumonia  em decorrência do vento e da saliva dos macacos, que não cessavam de tentar fazê-lo descer de lá, escarrando nele, então eu realmente não pude deixar de perceber um ou outro detalhe sobre isso!!!
- Isso foi realmente estranho, mas eu falo de outra coisa. Você notou que apesar dos flocos de neve estarem em toda parte, e de estarem pousando em todos que conseguiam alcançar, todas as vítimas, das quais a mais afetada parecia ser Newdred, tentaram atacar você, ou qualquer coisa que lembrasse você?
- Bem...Quanto a isso somente posso dizer que ser famoso tem o seu preço, sabe como é não é?
- Pai...Bragi está falando sério...Mamãe realmente tem um rancor muito grande do Senhor, mas lá embaixo o que eu vi foi além do limite...E depois ela não parecia ser como os outros “...draukars gelados...”, parecia que tinha mais....recursos...ao algo assim!
- Isso é verdade, e o motivo para isso eu estou suspeitando já a algum tempo.
- Quanto a isso, eu também!
- Do que você estão falando? – intrometeu-se Arícia na discussão.
- Do encanto erguido pelos Deuses sobre Loke e Newdred, como um castigo em decorrência de Loke ter roubado o Mjoullnir, para encontrar Erick.
- O que tem esse encanto?
- A magia de Loke não funciona em Newdred, e somente outro Deus pode abrir o Bifrost para que ele entre em Aesgard.
- Vocês dois estão achando que alguém que detesta Loke muito mais do que...bem...do que o resto dos seres que ele tenha conhecido em sua vida...Está usando isso e aumentando com algum outro tipo de truque?
- Isso Arícia, você está começando a pegar o jeito...E que história foi aquele de “...resto dos seres que ele tenha conhecido em vida...”?????
- Bem...Eu tentei ser honesta...E não deu pra encontrar outras palavras melhores...RAIOS...Você me dá nos nervos...Nada para quieto quando você está por perto...Tudo fica estranho...Não dá para confiar nas coisas e nem nas pessoas.......
- Bem Arícia, Loke não pode evitar, ele é o Fogo. Ele dá vida aos corpos, coisas e situações, ele evita que elas fiquem paradas ou que se congelem na eterna repetição, das mesmas coisas, ou seja, no caminho que leva a inércia e a morte...Acontece que o preço para isso...É esse aí do seu lado!!!!

Arícia havia visto um vulto estranho perto do seu ombro, no mesmo momento em que depois de um piscar de olhos, Loke havia desaparecido.

Ela ergueu os olhos, fingiu que não viu o vulto crescer, e ficar com formas estranhas – ela somente parecia perceber que ele era rosado – e pôs as mãos nos ouvidos e ficou cantarolando a tão odiada “Lumiére de L’aube”, de Madeleine, para esquecer de todo o resto.

Mas não durou muito, sob o olhar estarrecido de Erick, do rosto pálido de Madeleine, e da expressão chocada de Bragi, ela não resistiu e olhou para o lado!

E lá estava ele, imenso como uma montanha, rosa como um flamingo, tresloucado como um bambu fino ao vento, e com um sorriso anormalmente grande mesmo para aquele rosto imenso.

Era como o Gato de Botas das histórias de crianças!

- Gggrrrrr...MIIAAAUUUUUU....FSST...FSSST...FSST...!
- ARRGGGGHHHHHHH!!!! O QUE É ISSO!!!!!!!!

E batia na cara do imenso felino rosado, com um de seus sapatos na mão!

- EEIII..Pare já com isso...Dá trabalho fazer crescer estes bigodes em rosa choque ouviu???
- BRRAAGGIIII...Faça ele parar...Faça ele parar...Faça ele parar...Porquê ele me persegue??? O que eu fiz pra ele?????
- Bem você é uma Seidhkona em treinamento, não é?
- E dái...Ninguém nunca me disse que as Seidhkonas tinham que passar por um perseguição do deus do fogo!
- Olha não é pessoal...Palavra de honra...Eu sou naturalmente espontâneo desta forma, com todo mundo...Mas no seu caso, é compulsivo!
- O porquê? Porquê eu rolei no chão com você no avião? Olha, eu peço desculpas! Eu dou um jeito até de colocar um Outdor, com o meu “...Loke, perdão...”, na cidade onde moro. Mas por favor, me deixa em paz!
- Arícia, você não entendeu! Loke não o faz porquê está perseguindo você. Ele o faz porquê você, com seu temperamento explosivo e irritado, parece atraí-lo e tentá-lo a fazer isso!
- COMO ASSIM? ESTÁ COLOCANDO A CULPA EM MIM?
- Não, estou lhe dizendo que talvez Hlokk, não tenha contato em detalhes algumas coisas a você. Por exemplo, qual nome você vai assumir quando fizer os votos?
- Bem...Eu não pensei ainda sobre isso...Ela quer que eu escolha, mas fica sempre taciturna quando eu peço detalhes de como escolher um nome adequado...Parece que sempre tem algo errado incomodando-a!
- Em algumas tradições, o nome adotado é seguido de um sobre nome, que define o Vikti ou a Seidhkona, como ligados diretamente a um deus, por exemplo, Hagar Thunnarson.
- Sei...Hlokk uma vez havia me dito algo. Ela falou que o primeiro nome era assumido pela pessoa, e o segundo nome indicava que estava pessoa estava ligada a uma Deusa ou a um Deus. Eu fiquei pensando um pouco quando ouvi isso, e imaginei durante um bom tempo, qual nome combinaria com Freija. No caso dos homens, ela dizia que sempre havia o final “son” e no caso das mulheres era algo como “dauthis”.
- Freija? Bem, acho que aqui está o nosso problema quanto ao seu problema com Loke!
- Como assim?
- Bem, considerando tudo que já lhe disse, deve ser bem evidente, pelo menos uma parte do segundo nome, não é???
- Não...Não...Você deve estar brincando...Porquê as Nornes são tão cruéis comigo...!!!
- FILHA MINHA!!!! Venha agora para abraçar seu pai!!!

E Arícia sequer se deu conta da brincadeira final de Loke, ela parecia estar em choque!

Após os esclarecimentos para Arícia, que fizeram Erick considerar razoavelmente os métodos de seu pai proceder com as pessoas, Bragi formou um plano de reconhecimento, e o colocou em prática.

O plano era simples, enquanto ele e os demais seguiriam para Idavoll, ele colheria informações em toda Himinbjorg, e em duas horas se encontrariam na fronteira de Himinbjorg com a Planície de Ida.

Em si, o plano não era ruim, afinal de contas o que poderia dar errado em duas horas, ou mesmo quem poderia estragá-lo em tão pouco tempo?

Bem, o leitor já deve saber muito bem a resposta, não é mesmo?

Bragi levou-os por uma passagem que ficava logo após as imensas sequóias que haviam a trezentos metros, do portão da cidadela de Haimdallr.

Caminharam por duas horas para poder atravessar todo o espaço preenchido pelas imensas árvores.

Após algum tempo, depararam-se com ruas calçadas, feitas de algum tipo de material reluzente.

Estas ruas seguiam ou para as moradas menores de Himinbjorg, ou para a região de suas muitas forjas – pois Himimbjorg é o local onde as armas de muitos dos guerreiros, são feitas em Aesgard.

Uma das estradas, a mais ampla, levava para Idavoll.

Bragi seguiu juntamente com seus acompanhantes por aquela estrada, e pôde constatar que o aviso que Hemo havia lhe dado era correto.

Ela estava fria, com pequenos pontos de gelo, que iam aumentando em quantidade, conforme avançavam para a Planície de Ida.

Após uma hora de caminhada, as árvores congeladas começaram a aparecer, e depois disto animais congelados, e o frio ficou insuportável.

Bragi usou seus métodos, e retirou dos animais mortos, vitalidade residual o suficiente para que suportassem o frio, até que Loke voltasse.

Deles também pegou as peles, para proteger aos humanos e ao meio humano, que estavam sofrendo muito com o pó de diamante que começou a cair sobre todos.

Uma dura caminhada seguiu-se então, onde em determinados momentos, praticamente estavam patinando sobre o piso congelado.

No ponto exato onde deveria ser a fronteira, uma enorme massa de neve estava se aglomerando.

- Agora sei porquê os estranhos flocos de neve conseguiram chegar até Midgard. Eles estavam descendo, emanados da fonte deste frio incontrolável.
- Bragi, o que vamos fazer agora?
- Calma Erick. Temos que esperar seu pai retornar de qualquer maneira, e depois deveremos seguir para o local que suspeito ser a fonte de tudo isso.
- De qual local você está falando?
-  Madeleine, estou falando de Thrymheim, lar de Skhad!

Enquanto tudo isso se passava com os 4, Loke estava as voltas com seus próprios problemas.

Inicialmente ele não encontrou pessoa alguma em Himinbjorg, e esmo os animais pareciam ter migrado para algum outro local.

Depois ele começou a topar com alguns Tralls, anestesiados e dormentes, e muitos deles com os mesmos sintomas dos Midgardianos, contudo a natureza de Aesgard, e de seus habitantes, os tornam mais resistentes a algo assim.

Após mais ou menos duas horas, deparou-se com dois Carlls, discutindo em tom de briga.

Para ouvir melhor, assumiu a forma de um mosquito, e com muito cuidado, pousou no ombro do que estava deitado:

- Glad, eu já falei mais de dez vezes. Temos que entregar nossas cargas, o metal que está com você é muito importante para as forjas!
- Jut...Você é muito severo, tem que relaxar mais...Talvez dormir um pouco, para ficar com um humor melhor.
- Dormir? Dormir? Haimdallr saiu de Himinbjorg, para confrontar o frio descontrolado que está vindo de Thrymheim, e não voltou ainda. As pessoas estão todas hibernando, sem vontade nem de respirar, só o fazem por puro hábito. Os guerreiros que não foram afetados pelo “sono gelado”, foram com Haimdallr. Ninguém retornou. Se precisarem de armas, como vão fazê-las sem o metal? Diga-me???
- Bah...Olha, a única coisa da qual eu quero saber agora, é de ficar aqui deitado na minha barraca, sem fazer nada...e dormir....uuaahhh...muito...estou com um sono que não é normal!!!
- Eu não disse, eu não disse!!! Você já está com o “sono gelado”, logo, logo vai estar coberto de gelo, como o resto de tudo que está perto da fronteira com Idavoll. Isso é, se o gelo não ficar com preguiça de encostar em você primeiro!

Loke não tinha certeza do que deveria fazer, mas ficou um pouco cismado com a preguiça do Carll  sobre o qual havia pousado.

Então ele resolveu que aquilo não poderia ficar daquela forma, e foi se arrastando como um bom inseto, para dentro da roupa do Carll de nome Glad.

Lá dentro, assumiu a forma maluca de um ouriço misturado com urtiga, e começou a rolar pelo corpo do Carll, causando bolhas sangrentas tão irritantes, que o Carll imediatamente pulou para fora das cobertas, e começou a se esfregar.

Temos que dar um certo crédito a Loke no que fez, em sua vontade de punir o Carll por sua preguiça, ele ampliou o grau de toxidade da substância alérgica da urtiga, para graus jamais imaginados pela ciência humana.

Coçou a perna, os cotovelos, as bochechas, os olhos, o couro cabeludo, os pés, as costas das mãos, as axilas, os vãos da pernas e os glúteos.

- Que praga você tem, Glad? Parece que algum espírito maligno se apossou do seu corpo para fazer você se coçar até a morte! Isso não parece coisa do “sono gelado”!
- Que “sono gelado” que nada! Tem alguma coisa me comendo vivo! Eu vou jogar metal derretido na pele só pra fazer isso parar!!!

E atirou-se no chão, rolou, rolou, rolou ficando de pé por fim, e daí começou a se sacudir com tanta força, que acabou fazendo com que Loke fosse atirado a dez metros a esquerda, sobre um dos Tralls semi congelado.

A queimação foi tanta, que ele despertou imediatamente para se coçar.

Pegou uma das lanças e espetou as costas até derrubar Loke no chão.

Bateu nele com a lança, e o fez – de novo – voar pelo ar e colidir com um grupo de Tralls e Carlls que preguiçosamente, estavam dormindo todos juntos, no local em que caíram no “sono gelado”, horas atrás.

Imediatamente foi o começo de um verdadeiro festival de “coça-coça”, bate, empurra, grita, chuta, e joga Loke para lá e joga Loke para cá.

Chacoalharam tanto Loke, que ao colidir com o chão, ele voltou a sua forma verdadeira, diante de uma platéia completamente atônita, de Tralls e Carlls, recém despertos, irritados, com alergia, e muito, muito bronqueados com o que aconteceu.

Um deles incapaz de suportar a coceira interminável, colidiu com outros três que estavam caídos, e já hibernando, o contato com a substância alérgica produzida por Loke, foi tão violento, que se levantaram e começaram a se coçar imediatamente arrancando os cabelos no processo.

E como cada um deles, ao acordar de seu “sono gelado”, não estava em posse de suas perfeitas faculdades motoras, exatamente como no efeito da “queda dos dominós”, uma verdadeira legião de Tralls e Carlls “coçadores”, estava desperta em Himinbjorg.

- Mas o que é isso...Estou queimando vivo!
- Isso é um horror, não paro de me coçar!
- Isso é alguma brincadeira? Quem foi o miserável que fez isso?

A mera menção da última frase, todos olharam instintivamente em volta, e depararam-se com Loke, que num gesto involuntário, estava sorrindo enquanto apreciava suas obras.

- É ele!!! Ele voltou, soem o alarme!!! Despertem toda Aegasrd, mandem os pombos mensageiros!!! Alertem os grupos de caça!!! Peça reforços e ajuda!!!

E ergueram suas armas, postando-se em posição de batalha dispostos a perfurar o corpo de Loke, tantas vezes quantas fossem necessárias para ter certeza de que ele não poderia concertá-lo.

Começaram então a perseguí-lo!
Loke, podia ouvir a distância as imensas trompas soprando um peculiar alarme que Loke conhecia muito bem.

Era um tipo de sinal, para identificar suas traquinagens desmedidas, e somente o som do Gjllaghorn de Haimdallr, era superior ao barulho produzido por ele.

Mas tudo estava diferente, desta vez, pois os gritos de guerra estavam mais furiosos do que Loke se lembrava, na verdade ele ouviu repetidas vezes:

 “...Despertem!! Despertem!! Todos os guerreiros de Aesgard nos 12 Reinos, devem despertar e se unir...Venham todos para combater o malígno “sono gelado” produzido por Loke!!! Ou então este fará coçar e ficar em carne viva, o traseiro de todos os Aesgardianos...”.

Loke não teve dúvidas!

Transformou-se em uma raposa, e correu com toda a força, na direção do ponto de encontro com Bragi!!!


***


Bragi, Arícia, Madeleine e Erick estavam envoltos em um domo de toras que Bragi conseguiu deslocar, e colocar em formação, para bloquear o vento gelado, que não cessava de aumentar em volume, aquecidos pelas peles dos animais que Bragi pegou inicialmente para os outros três, mas que dada a intensidade estranha e anti natural do frio, acabou por também usá-las.

Conseguiu torná-las mais densas, mas para isso teve que se aproveitar da gordura residual que não se tornou gelo do corpo dos animais, e isso claramente era algo que não ficaria sem efeitos colaterais, uma vez que os mantos de pele aqueciam, mas exalavam um cheiro fortíssimo de entranhas!

- Eu estou tão enjoada que não consigo nem mesmo pensar em comida!
- Sorte sua Madeleine...Mesmo que o cheiro dos mantos me revire o estômago, eu não consigo parar de pensar em qual seria o gosto da carne devidamente preparada...Nham-nham...
- Erick, está tudo bem com você? Desde que chegamos aqui, você tem agido estranho. Olhando tudo, bisbilhotando em tudo...É quase como se não fosse a mesma pessoa!
- Ei...Isso é verdade! Eu ficava me perguntando como um “...nerd...” como você, todo certinho, poderia ser filho “dele”!
- Dele? Ah, você está falando de papai, não é? Bem, você de certa forma também é filha “dele”, e não dá “quase” para notar a semelhança!
- O que você quer dizer com quase? Eu não fico o tempo todo pensando em como fazer piada, mesmo que as custas da boa saúde mental de alguém!
- Mas é “quase” tão encrenqueira quanto ele...Lembra-se do episódio no avião, e de que você e Madeleine depois rolaram no chão brigando com papai?
- Ora...Mas foi ele quem começou...Se ele não estivesse sempre atazanando a minha vida, eu não teria perdido a cabeça daquele jeito! Isso não é justo!
- Talvez não seja justo, mas é verdade que a facilidade com a qual ele tira você do sério é tão impressionante, que eu não vejo outra resposta além de algum tipo de ligação entre vocês dois!
- Por favor...o cheiro já é de doer...e você ainda piora as coisas me fazendo lembrar disso...Oh, Nornes...Por quê...Por quê...Por quê??????!!!!!!????
- Ah não...Você não vai começar com isso de novo não é...Eu não tenho mais condições de ouvir outra choradeira...
- Madeleine, se você tiver alguma sugestão...fale logo...qualquer coisa para eu me esquecer desse medonho destino que as Nornes................!
- VENHA E SENTE-SE AQUI...JÁ...E NÃO COMECE COM ESSA RECLAMAÇÃO INTERMINÁVEL..ISSO ME DÁ MEDO!!!!!

Erick já imaginava que esse era o maior impulso de Madeleine, em fazer com que Arícia parasse de choramingar, mas pelo menos fez com que ele reparasse em mais um fator que contribuía para o desespero de Arícia, sua eterna reclamação lembrava em muito os discursos infinitos de Loke, quando estava falando sobre si mesmo!

- Ok...E agora o que é que eu faço?
- Oh, mon bijou, você deve ficar aqui, exatamente diante de mim...E agora respire profundamente...Isso...Isso...Isso...Agora repita comigo tudo o que eu disser...Mas acompanhe direito chéri!!!
- Raios...Certo o que eu tenho a perder?

- La lumière blanche dans ton coeur... ment dans l'arc en ciel...
- La lumière blanche dans ton coeur... ment dans l'arc en ciel...

- O QUÊ???? LUMIÉRE DE L’AUBE !!!!! LUMIÉRE DE L’AUBE !!!!! AAARRRGGGHHHHHHH!!! Como você ousa? Eu não suporto essa música!!!!!!!!
- Mas eu ouvi você cantando agora a pouco...Com as mãos nos ouvidos...Pensei que tivesse melhorado o seu gosto musical!!!
- Ah, eu não agüento...Primeiro é o Deus das Brincadeiras infames...Depois é a Megalomaníaca Gótica!!!
- Quem é a megalomaníaca, chat galeux mal vestida !????!!???!!!?????????

Neste ponto Bragi teve que interferir, pois começaram de novo a tentar arrancar mutuamente as orelhas e o cabelo, uma da outra.

Erick estava atento as coisas fora do domo de troncos, e não prestou atenção ao que aconteceu com as duas.

Ele via em sua mente, que o frio havia esmorecido um pouco, e que o vento frio reagia com se estivesse “irritado”.

Além disso, sentia a proximidade de muitas pessoas, vindo com fogo, mesmo contra o vento fortíssimo que açoitava tudo fora do domo.

Dentre aqueles que sentia, uma das presenças estava mais próxima do que as outras, e em pouco tempo chegaria até o domo.

Erick soube de imediato quem era, e avisou a Bragi sutilmente, para não deixar Arícia mais consternada.

Poucos minutos depois, um vulto prateado entrou pelas frestas das toras, e foi cair sobre Arícia, que ficou mais assustada com do que irritada com o incidente.

Pelo menos até que o animal começasse a aumentar de tamanho, ficasse ruivo, e estampasse em seu rosto um sorriso irritante que parecia escarnecer de tudo:

- Temos que ir agora...Estou sendo caçado!!!
- Um momento? Quem o está caçando?
- Bem, sabe como é...Estou de volta...As pessoas me conhecem...Logo relembram dos velhos tempos...E daí já começam a gritar “...Loke, Loke, queremos sua cabeça...”!
- Mas não era para você ter feito um reconhecimento simples, disfarçado e sem aparecer muito?
- Até era, mas eu quis punir um sujeito preguiçoso, que depois contaminou todos que estavam congelados com a coceira e daí....
- COCEIRA?
- Isso...E daí tocaram as trompas avisando que voltei...Aliás vocês não as ouviram?
- Não o vento está bloqueando o som!
- Um momento vocês dois – gritaram conjuntamente Madeleine e Arícia – como vamos fazer para atravessar esse vento cortante??????????
- Não se preocupem quanto a isso...Eu, Loke, senhor do fogo, poderoso ardor da vida, mantenedor do calor e dos sentidos do corpo humano, filho de Farbaut e de .........

-LLLLOOOOKKKKKKEEEEEEEEEE!!!!!! Bradaram os 4 ao mesmo tempo.

- Ok, Ok, Ok...Eu vou falar!!!

E Loke explicou seu plano, ao qual Bragi adicionou suas suspeitas de onde deveria ser o provável local de onde o frio estaria vindo – não sem deixar transparecer um certo temor do que Loke estava propondo.

Chegaram a um consenso, e começaram então a se prepararem.

Os outros três, apenas ouviram por alto do que se tratava o plano – Erick percebeu quase tudo, graças a seus sentidos terem sido aprimorados pela estadia em Aesgard – e ficou afônico, fato este que deixou Madeleine realmente nervosa e Arícia batendo com a mão esquerda no punho direito, resmungando sem parar.

Quatro horas mais tarde, todos os preparativos estavam prontos, o frio estranhamente havia cedido mais do que o esperado, e o sons dos carros de batalha e montarias dos Aesgardianos, podiam finalmente ser ouvidos.

Em outras condições aquilo seria um alívio, pois poderiam em peso irem até a fonte de todo o conflito e tentar resolver tudo.

Porém, qualquer um que fosse estranho a Aesgard, e pior, que fosse visto com Loke naquele momento, seria encarado como “...alguma das muitas brincadeiras infames de Loke...”, e portanto digno de uma machadada na cabeça.

Quando os sons da proximidade de seus augozes denunciava que o tempo havia terminado, tanto Loke quanto Bragi haviam baixado os braços e saído da Stadha de Kenaz – um pouco roucos de tanto entoarem o galdhr apropriado – e fizeram com que Madeleine, Erick e Arícia se aproximassem deles ao máximo.

Quando a primeira flecha cruzou o céu, e atingiu o chão logo atrás da perna direita de Loke,  assumiram imediatamente “Uruz”, e deixaram que uma gota de sangue de cada um deles, fosse ofertada ao solo de Aesgard.

Isso não parecia ter feito nada logo de imediato, mas produziu após alguns instantes, um efeito devastador no solo.

Erguendo-se como que em ondas, a terra bloqueou o caminho para as tropas de de Aesgard.

Em seguida ela aumentou ainda mais de tamanho, e começou a fumegar, e ao mesmo tempo em que isso ocorria, uma enorme massa de terra, ondulou e projetou-se para a outra formação gigantesca de terra, fazendo com que Loke, Bragi e os demais ficassem posicionados quase no topo, mas em um ângulo preciso que dava campo de visão, nos raros momentos em que o vento permitia que se visse algo, para o topo da Montanha da Asa dos Ventos.

No momento seguinte, a única coisa que Arícia ou Madeleine poderiam expressar, seria que a mais completa insanidade se manifestou ali.

A formação de terra maior, a primeira  a ser feita, explodiu literalmente em uma bolo de cinzas e de fogo, criando uma tempestade pirosfórica, que causou um violento choque com a temperatura baixa do local, gerando uma chuva densa, que ao se aproximar do solo, mantinha sua temperatura na casa dos 70° Célcius, o suficiente para queimar a pele de dos guerreiros que vinham no encalço de Loke e de qualquer um que com ele estivesse.

Isso os fez recuar, mas o passo seguinte, esses guerreiros jamais  poderiam imaginar.

Uma segunda explosão, desta vez na lateral do vulcão “recém descoberto” em Aesgard, arremessou a parte superior da segunda montanha com uma força tão grande, fazendo-a subir muito acima no céu, descrevendo um arco que parecia levá-la diretamente para a Montanha Asa dos Ventos.

Ao mesmo tempo, a tempestade pirosfórica gerada, chocou-se com o frio e causou um efeito rebote interessante.

O calor levava os aesgardianos a se protegerem, e lhes dava o ímpeto para planejar os passos corretos, para perseguirem Loke, e arrancarem sua cabeça, tantas e quantas vezes fossem necessárias, até que ele não mais conseguisse se levantar.

Os ventos quentes do vulcão amenizaram o frio absurdo e anti natural, liberando as rotas de acesso para todos os reinos fronteiriços com a Planície de Ida, coisa que em muito facilitou para que os exércitos se movessem em seu plano de retaliação, e principalmente, que contribuiu para o deslocamento de algo estranho e gelado, que também era de fora de Aesgard.

Em Midgard, o gelo de alguns dos “...draukars gelados...”, começava a gotejar.

Enquanto isso, cinco figuras berravam em conjunto enquanto o arco ascendente começava a parar sua impulsão e iniciava a curva descendente.

Loke expandiu-se para tentar forjar um para quedas com seu corpo, ao qual agarraram-se Bragi, Erick e Arícia, porém Madeleine não conseguiu se segurar a tempo.

Com horror, Erick a viu descrevendo uma vertiginosa descida para a morte, quando se espatifasse no topo da Montanha Asa dos Ventos.

Mas algo ocorreu nesse momento.

Contrariando todas as espectativas, o pinheiro que estava logo a sua frente, pontudo, provavelmente a primeira coisa a colidir com seu corpo no topo daquela montanha gelada, curvou-se inacreditavelmente flexível sob o peso de Madeleine, dobrando-se sobre si mesmo, e atenuando a queda de tal forma, que ela chegou ao solo com a mesma leveza de uma pluma.

Quando também os demais chegaram ao topo da montanha, ela ainda mantinha o olhar aturdido, daqueles que para quem a morte veio mas não os levou:

- Impressionante! Bragi seu talento me deixa realmente pasmo! Por um momento eu pensei que ela estava acabada!!!
- Loke...Não fui eu...Eu estava pensando que teria sido você!
- Eu, eu tive que me concentrar ao máximo para acertar o ponto e não cairmos todos como granizo!
- Então quem foi?
- Porquê vocês dois não fizeram simplesmente com que asas crescem em todos nós? Porquê tinham que fazer algo tão arriscado?
- Arícia...Este frio anti natural é produzido por alguém muito poderoso...Na verdade ele está bloqueando muitas das capacidades naturais de Aesgard e muitas de nossas sutilezas!
- Como o quê por exemplo?
- Como a possibilidade de transmitir informação rápida para qualquer outra pessoa nos Doze Reinos!
- Então quem foi  que salvou Madeleine?

- FUI EU!!!

A menção do termo “Eu” em alguém de voz fraca, é tal e qual o barulho de um pernilongo – e quase tão incomoda quanto um. Já em uma voz mediana, leva a pessoa a entender que há outra pessoa presente no local. Em uma voz forte dá a entender que alguém com uma presença marcante – normalmente mais marcante do que a outra pessoa – acabou de se anunciar. Mas na voz de um Deus, é como se a própria atmosfera oprimisse os pulmões de qualquer mortal que estivesse próximo a ele, no mesmo lugar!!!

Todos se voltaram para um grande amontoado de Gele e Neve que estava uns treze metros aproximadamente a frente do pinheiro que salvou Madeleine da morte certa.

Inicialmente não era possível distinguí-lo da claridade mesclada a brancura da neve, mas em seguida era possível perceber o ponto em que os membros de seu corpo coberto de vestes brancas despontava, do gelo que o mantinha preso.

O gelo, como estava evidente, estava lentamente gotejando naquele momento.

- Heimdallr? É você mesmo? O que faz aqui, tão longe de Himinbjorg? O que houve com você?
- Vim para tentar impedir o avanço do gelo, como meu dever como guardião de Aesgard. Muitos dos Jahrls que me acompanhavam, pereceram no frio, ou estão aprisionados, exatamente como eu estava agora a pouco, pelo gelo místico!
- Como tudo isso aconteceu? Como começou?
- Bragi...Vi o gelo, ouvi enquanto este crescia e abraçava tudo em volta de si, vindo de Thrimheim. Eu não poderia imaginar que Skhad estivesse envolvida, então supus que algo havia acontecido com ela. Nos armamos e viemos, mas o frio golpeou-nos com um som igual ao do bater das asas de uma águia, e quase no mesmo instante nos aprisionou. Guardei forças para romper o bloqueio que estava nos aprisionando, e enviei uma mensagem para você, sabendo que provavelmente pensaria em trazer Loke junto!
- Porquê não mandou uma mensagem para mim diretamente?
- Porquê você não pode abrir os portões de Aesgard, lembra-se? Estava de “castigo” em Midgard, sob um feitiço que eu também ajudei a forjar! E também, porque me custava muito pensar em trazê-lo de volta...Ah, a paz se extinguiu tão rápido....É uma lástima!!!!

Arícia sentiu-se tocada pelas palavras de Heimdallr, ela própria já sentia saudades dos seus professores mais severos, por causa dos eventos que a levaram a sair em viagem com o Deus do Fogo.

- Bah...Vocês são todos melogramáticos...Fico só imaginando o tédio mortal em toda a Aesgard, depois que fiquei...retido...em Midgard!!!
- O que você disse Loke? – perguntou Bragi.
- Que vocês são todos melodramáticos e................
- Não, a outra parte!
- Ah...que deveriam estar morrendo de tédio, como é possível.....
- Isso!!! Esse deve ser o motivo!
- Do que você............
- Daria para vocês confabularem depois e me soltarem do gelo agora???????????/

Loke derreteu o gelo, não sem queimar acidentalmente a ponta do dedão do pé de Heimdallr no processo.

Bragi, enquanto isso já havia repensado sua teoria recém descoberta, muitas vezes em sua mente, e não conseguia ver falha alguma nela.

- Pelo que parece...A ausência do Deus do Fogo em Aesgard, tornou o Reino todo suscetível a formas de fraqueza pelo frio!
- Mas não é qualquer um que poderia ter causado um frio como esses...Tem que ser um poder descomunal, e não me lembro de nenhum Jotun que retenha uma força dessas ou já a teriam usado contra Aesgard! – Retrucou Heimdallr.
- Não é um Jotun que estou imaginando que tenha permanecido vivo desde a inundação de sangue de Ymmir, estou pensando em um que pouco depois disso, foi dado como morto!
- Em quem você está pensando Bragi?
- Não é meio óbvio, dado o local onde estamos?

Tanto Bragi quanto Heimdallr olharam para Loke no mesmo momento, e deram a exata impressão do problema em que Aesgard estava metida.

Heimdallr, já havia dito a Bragie , Loke e seus acompanhantes que os Doze Reinos estavam impedidos de se comunicarem uns com os outros, e que não havia sinal de atividade de Odin, Tir, Freija ou de Thor – por exemplo – porquê estes estavam fazendo, provavelmente, a mesma coisa que Heimdallr viu Balder fazer com Bledablik, ou seja, selar o reino em uma barreira para impedir que o “sono gelado” pegasse a todos de surpresa.

No entanto, com o advento da revolta contra Loke, provocada pelo alvoroço que ele mesmo causou em Aesgard, os jahrls estavam despertos e se moviam, na mesma medida que o frio parecia estar cedendo, com a medidas pouco sutis de Loke, para que pudessem chegar a Montanha Asa dos Ventos.

Tendo o vento diminuído bastante, resolveram porem-se em movimento, marchando na direção exata do que deveriam ser as antigas ruínas do castelo do antigo senhor de Thrimheim.

Pararam para descansar e comer, somente  quando os midgardianos não agüentaram mais de fome e exaustão.

A comida não era um problema com tantos animais congelados, rodeando o caminho no topo da montanha, apenas o descanso era insuficiente, pois não podiam ficar muito parados, pois o gelo tendia estranhamente a crescer sobre a pele, sempre que ficavam muito em algum lugar.

Ao final de 6 horas de caminhada difícil, chegaram não as ruínas mas sim a um esplendoroso Castelo de Gelo, uma verdadeira fortaleza branca, em meio ao açoite do vento.

No momento em que estavam chegando aos imensos portões, heimdallr agarrou os próprios ouvidos e gritou em dor lancinante:

- AARRGGGHHHH...!!!!
- Ei...O que deu nele? Parece ser perto de uma caixa de som em uma Rave de Trash Metal!!??!! - Disse Arícia.

E então ele caiu desmaiado, e o gelo quase que imediatamente começou a cobri-lo.

- Mas que praga é essa? O que houve com ele?
- Não sei Loke, mas talvez Erick tenha pressentido algo?
- Eu não tenho certeza, apenas um filete de sensação de mal estar crescendo mas ainda longe demais para ser uma ameaça e para que eu possa dizer realmente do que se trata.
- Mas como é possível que algo que esteja longe assim tenha afetado-o tanto? Perguntou Madeleine, a muito custo, dada a sua ainda não totalmente recuperada faculdade de falar, do pós queda, a fazer gaguejar demais.
- Heimdallr tem os sentidos mais sensíveis em toda a Aesgard. Ele pode literalmente ouvir o som da grama crescendo, se firmar sua concentração nisso.
- Isso quer dizer, que se algum som, qualquer que o seja, estiver a uma distância muito grande, ainda sim ele o ouvirá como se um amplificador de som estivesse conectado a seus ouvidos! Respondeu Bragi.
- OH NÃO...AQUI NÃO...NÃO É POSSÍVEL!!!!!!!!
- O que foi Erick? Descobriu o que é?
- Eu não tenho certeza, mas senti em meio a uma forte náusea, a sensação exata de...bem....de...
- Erick, fale logo de uma vez! Berrou Loke.
- Eu acho senti como se alguém estivesse cantando bolero!
- OH NÃO...AQUI NÃO, NÃO É POSSÍVEL!!! PORQUÊ AS NORNES SÃO TÃO RUINS COMIGO!!!! Choramingou Loke.

O gelo havia coberto completamente o corpo de Heimdallr, e tiveram que correr para dentro do Castelo, aproveitando que o portão de entrada estava entre aberto.

Lá dentro, as formações de gelo e cristal, no padrão dos flocos de neve, deixou  a todos pasmos com a beleza.

E como todas as formas de beleza, sempre a um quê de letal ao toque, uma vez que geravam gelo instantaneamente sobre tudo que nelas tocassem.

Bragie  e Loke foram na frente, o frio dali era inacreditável, mas a presença espessa do mesmo, encobriu a presença dos Aesires e dos Midgardianos.

Ao chegar perto de uma sala, após um imenso corredor, que dava a impressão de ser o principal aposento do castelo, ouviram uma discussão acalorada:

- Pai...Me deixe sair daqui...Você não tem idéia do que está fazendo!!!
- Já lhe disse minha filha, que você ainda não tem idade para governar...Vou retirar o peso disto dos seus ombros,e cuidar de alguns assuntos incômodos...
- Não é muito exagero da sua parte, congelar toda a Midgard par tentar pegar o deus do fogo?
- Não era essa a minha intenção, apenas os mortais estavam lá, jamais imaginei que eles fossem tão suscetíveis, todos menos alguns poucos. Mas agora, eu sou o deus que eles adoram.
- Sério??? Sob o garboso nome de “GENISTRÚCIO”???
- Detalhes, detalhes...Tenho apenas que bolitear uma ou outra coisa em suas cabeças, e então “pourrait”, tudo estará nos devidos lugares para o meu reino!!!!
- Descerei e reinarei depois de moer a cabeça de Loke em um pilão é claro, e governarei a vida de todos os homens e............
- E vai se apoderar de todas as mulheres não é???
- Ora minha filha você deixa determinados assunto tomarem o controle de sua mente. Você realmente acha que eu colocaria algo tão delicado como Midgard em perigo somente para satisfazer meus desejos...para tocar nas mulheres humanas...naquelas peles macias...naquelas expressões tolinhas...naqueles lábios........
- PPPAAAIIIII...Em todos os milênios que perduraram nas eras em que estava morto, você não  mudou nada!!!!!!!! No mínimo está pensando em alguma forma de convencer Idunna  a voltar para cá, deve até estar pensando em usar o aprisionamento no frio para isso!!!
- Ah, Idunna...Como poderia me esquecer de você...ou do maldito Loke!!!!!!

E ao dizer isso, irradiou uma imensa quantidade de frio, tão forte que quebrou a parede que separava os cinco do recinto principal, e que imediatamente aprisionou a todos em um bloco de gelo:

- FINALMENTE A MINHA VINGANÇA!!! MALDITO VOCÊ VAI ME PAGAR!!! VOCÊ VAI SOFRER !!!!!!!!!!!1

E então Thrim, primeiro Senhor de Thrimheim, Águia Negra dos Ventos Gelados do Inverno, inseriu duzentas agulhas de gelo no corpo de Loke, esticou sua pele, congelou e depois quebrou muitas partes de seu corpo, colocou em um bloco de gelo os muitos pedaços para depois disso quebrar tudo de novo, e repetiu e repetiu, por horas a fio, tudo de novo.

Somente quando estava exaurido de tanto tentar destruir o corpo de Loke, parou para descansar, enquanto ouvia um “Clap...Clap...Clap”, de palmas sendo batidas em aprovação ao esforço dele.

- Muito bem....Bravos, Bravos...Ele nunca mais vai se levantar de novo!!! Ótimo viva, viva, viva!!!!
-COMO EM NOME DE YMMIR VOCÊ ESCAPOU DO GELO SEM, QUE EU O VISSE SAIR DE LÁ???????
- Ah...eu ainda estou preso...veja ali!

E acenou para si mesmo, que devolveu o aceno, dissolvendo-se em forma de uma chama.

- MALDITO VOCÊ NÃO VAI ME ENGANAR DE NOVO!

E esmurrou a parede direita, a parede esquerda, o teto, o chão, duas paredes ao mesmo tempo. Mas por mais que fosse rápido e que acertasse Loke, parecia que Loke,  era com um enorme boneco de borracha.

- Já que não posso lhe tocar maldito...Vou esfriar a cabeça de um de seus amigos!!!

E apontou a mão gelada para Madeleine.

Quando estava perto de disparar, um som horrível se abateu sobre o ambiente.

Tal e qual um bolero mal cantado e interpretado como opera, o ensurdecedor som, aumentava sem parar, a ponto de rachar o teto de gelo, sobre a sala onde está, e permitir que uma figura carregando uma imensa pedra, pulasse para dentro da sala do trono, e quebrasse a pedra na cabeça de Loke, que literalmente ficou vendo estrelas depois disso.

- Mamãe pare...Não faça isso!!!

Gritou Erick para Newdred, que agora mais parecia com a versão feminina, em formato de picolé, do “exterminador do futuro”.

Mas ela já estava além do limite humano naquele momento, e só respondia ao impulso de assassinar o deus do fogo.



- E então pequeno traidor...Gostou do que fiz...Segui o rastro dos demais
 Aesires, indo até Midgard, e concentrados em uma humana. Quando você se apartou dela, aproveitei a chance para preenchê-la com meu poder, para que ela o perseguisse e o eliminasse, já que os deuses a tornaram imune ao seu poder!!!

- Impressionando a propósito, você vai fazê-la parar de cantar?  Só um pouquinho?

- NÃO...EU QUERO QUE VOCÊ SOFRA...EU QUERO QUE...AAAAAHHHHHHH...MULHER CALE-SE...PARE ESTA MALDITA E HORRENDA MELODIA...MEUS OUVIDOS FICARAM SENSÍVEIS DEPOIS DE DUAS ERAS NOS BRAÇOS DE HELLA...CHEEGGAAAA....PARE...PARE...EU SUPLICO...AAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Mas Newdred nada ouvia, ela somente era compelida pelo violento desejo de fazer Loke sofrer, o que neste caso também estava sendo um sofrimento ainda maior para as imensas orelhas de Thrim, que ficaram tão sensíveis pela ausência de uso de seus sentidos, no decorrer do tempo em que esteve morto.

Então tal e qual uma taça de vidro que se parte quando exposta a um diapasão ou a voz de um tenor, em toda a amplidão de seu timbre, as notas horríveis da sinfonia da desolação que saía da voz igualmente ruim de Nwedred, invadiam e rachavam completamente tanto o castelo quanto o corpo de Thrim, que não tendo mais um corpo desde que o seu foi reduzido a cinzas pelos Aesires, gerou a partir de sua vontade um corpo de cristais entrelaçados feitos de gelo.

Talvez tenham sido os próprios cristais que tanto o auxiliaram a encontrar Loke em Midgard, quanto foram a razão  do fracasso em seu plano de vingança, ou talvez como Skhad tem o costume de dizer, ele tenha a cabeça no lugar errado do corpo, principalmente quando alguma mulher está envolvida.

Mas o fato é que a mais tenebrosa arma recém desenvolvida pela “Newdred Jotun”, para exterminar Loke, também exterminou o Jotun, estilhaçando-o em milhares de pedaços.

Em desespero Loke gritou e expandiu seu fogo interno acidentalmente, o que levou os estilhaços de Thrim a derreterem por completo.

O castelo desabou em seguida, voltando a ser um amontoado de ruínas, já que seu Senhor mais uma vez não estava mais vivo.

Dos escombros, horas depois, Heimdallr retirou Erick, Arícia, Madeleine e Bragi.

De Loke não havia sinal, exceto um esgar de olhos de Skhad, quando lhe foi indagada onde o Deus do Fogo teria ido:

- Ele foi visitar o Volholl...Disse que a muito tempo não tem uma conversa decente com as Idisires de lá!!!
- Conversa?
- Heimdallr, você me entendeu!
- Eu não consigo entender como ele consegue ser desse jeito, depois de quase morrer e das confusões que apronta, e nas quais sempre está envolvido !!!! – disse Erick.
- Essa é a natureza de Loke. E é bom que os Deuses e Deusas se acostumem com ele por aqui mais uma vez, pois vimos o que pode acontecer a Aesgard com a ausência do Deus do Fogo! – afirmou Bragi.
- Bah...Eu vou para o meu Castelo, dar ordens para que as ruínas sejam eliminadas, e para que coloquem guardas vigiando este local.
- E eu devo retornar para o meu posto em Himinbjorg.
- E quanto a nós? O que vamos fazer? Pra onde vamos?
- Calma Madeleine! Você é minha convidada em meu palácio. Idannua nos receberá sem ressalvas. E Erick e Arícia podem ficar nos reinos aos quais estão ligados.
- Então verei o palácio de meu pai?
- Não...Eu disse nos reinos aos quais vocês estão ligados. Você é claramente ligado a Idallir! Uller vai rir de suas histórias por décadas, depois de ouvi-las!!!
- Quem é Uller? – perguntou Arícia.
- O deus da Caça e dos esportes perigosos, esposo de Hella! - Afirmou Bragi, e olhando para os lado para saber se Skhad não estava por perto, e fazendo um sinal de silêncio com o dedo sobre os lábios, pedindo cumplicidade aos dois, completou - E amante de Skhad!!!!
- Ah...entendi...MAS ESPERE AÍ!!! Se cada um de nós vai ter que ficar nos reinos ao qual está conectado...Isso significa que eu vou...............?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!
- Sim, você terá a honra de estar no Volholl acompanhando o Deus do Fogo, em sua estadia por lá!!!
-OH...NÃO...POR QUÊ AS NORNES SÃO TÃO CRUÉIS COMIGO...PORQUÊ...Ei..um minutinho...Eu sei que a esposa humana de Loke ainda está aqui, e que ela provavelmente não vai ficar aqui...Porquê não retorno a Terra já que ela também vai retornar.
- Ora, Arícia, todos nós temos nossas obrigações, e no meu caso retornarei a Midgard. Vamos sim, levá-la para sua casa, e Erick deverá retornar também. Loke deverá ficar por aqui. Porém........
- Porém o quê??? Eu já estava me empolgando com a idéia de Loke ficar por aqui!
- Porém o gelo místico que está nela é o mais denso que foi empregado por Thrim, para dar condições dela encontrar e matar Loke, ele somente deverá ceder e degelar em duas semanas humanas!!!!!!!!!!
- Eu apenas recomendo a você, quando chegar em Volholl que ganhe a confiança da esposa de Odin, Frigga, isso pode ser muito útil para que venha a ter alguma paz em sua estadia no reino.
- Como eu faço isso?? O que eu devo fazer?? Quem eu devo matar???
- Calma...Calma...Calma...É só você contar a ela tudo o que lhe sucedeu, desde que encontrou Loke naquela estranha condição no Avião que levou-a a Paris. Tenho certeza de que essa experiência será suficientemente chocante, para que ela se compadeça de seu destino.
- Bem...Há então esperança!!!

******final******



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