terça-feira, 9 de outubro de 2012

Contos Aesgardianos 3 - Sith


SITH
(por Áistan Falkar ano 2006 da vulgar era cristã)


   Aproximava-se a primavera.
   Arícia pensava se o festival desta ano seria como o do ano passado, quando mudou-se para a cidade das flores.
   Era um clima típico de festa, em um local que se dedica ao turismo e ao cultivo, e com uma recepção um tanto quanto seca para com pessoas novas, morando lá. Coisa estranha, já que um pouco antes disso, quando sua família esteve por alí como turistas, foram calorosamente recebidos.
   Mas ela supunha agora,que em todos os locais onde há alguma forma de cultura comum, ou laço familiar de alguma proximidade, sempre haverá um certo ar reservado, quanto aos estranhos.
   E ela com certeza era a “estranha” na cidade.
   Talves tivesse sido mais fácil, se o temperamento da garota fosse mais dócil. Ou talves se ela não manifetasse de forma tão veemente, quando não gosta de alguma coisa.
   Como no caso do professor que estava discutindo com ela, por causa de sua sisudez em uma aula – que na opinião de Arícia era totalmente inútil – sobre a sobriedade da cultura mediterrânea.
   Ela supunha que chamar de “sóbrio”, algo ou alguém que criou um “vomitatio” para as refeições, era prova suficiente de falta de sobriedade da parte de alguém.
   Neste ponto, o professor se irritou e acusou Arícia de estar sugerindo que ele estivesse “embriagado”. E devemos ressaltar que , isso era uma espécie de assunto em alta,  em toda a escola. Principalmente quando o alvo do assunto, parece estar trançando as pernas enquanto tenta se equilibrar em um banco alto, para enfocar a lousa e poder passar alguma matéria então.
   A discussão, como não poderia deixar de ser em algo envolvendo Arícia, terminou em um visita a diretoria da escola, com direito a um sermão da Diretora – uma mulher com um gosto estranhamente destoante para roupas rosadas – e uma visita forçada de sua mãe, para poder liberá-la de lá, e um enorme sermão sobre  a falta de compostura e de obediência da filha. E de como é possível que uma mulher quase feita, nos seus quase 18 anos, fizesse coisas desse tipo.
   Clara, sua mãe, era uma mulher muito paciente  que pretendia criar a filha, da mesma maneira que ela mesma havia sido criada pela avó de Arícia.
   Sempre falava enfaticamente de como a orientação religiosa lhe fez bem, lhe moldou os hábitos, lhe ajudou a se encaixar socialmente.
   Simplesmente não entendia como sua filha poderia ser tão diferente dela mesma, e apesar do pai de Arícia ser uma pessoa calma – na verdade calmo era até uma forma ativa de falar a respeito de Carlos, ele era absolutamente apático mesmo – secretamente ela o culpava pelo comportamento da filha. Tanto que, sempre que havia alguma pseudo discussão entre os dois, sua frase preferida para tentar produzir alguma reação no pai de Arícia, qualquer que fosse, era: “...Essa menina não parece ter nada de mim mesma! Esses modos, essa forma de agir, essa raiva!!! Isso não é da minha família...” .
   Carlos por sua vez, já acostumado ao comportamento da esposa, não lhe dava ouvidos quase nunca.
   Trancava-se em um mundo seu, entre seus pensamentos, e procurava estar alheio a tudo o que ocorre-se em sua casa, quando nela estava.
   Para ser mais exato, quando estava em casa e sua esposa e filha estavam no mesmo ambiente a muito tempo, simplesmente saía antes que qualquer atrito solicitasse sua interferência;
   Sua regra era simplesmente “...Evitar a Fadiga...”!
   Quando Clara “pediu” para mudarem-se para a cidade de alguns de seus parentes, endinheirados e pomposos, sabia que seria motivo de sofrimento constante. No entanto, sabia que sua esposa falaria até que estourasse a terceira guerra mundial, e depois de algum tempo acabou cedendo.
   Já Arícia ficou obviamente irritada com a mudança.
   Perdeu os poucos amigos que tinha, a rotina a qual estava acostumada, e a pouca paciência que tinha para com sua mãe,e bem como qualquer dúvida sobre a falta de postura do pai.
   Arícia pensou naquela época, que já havia sido horrível a idéia do colégio de freiras, e suas intermináveis rezas antes de qualquer coisa ou refeição.
   Se não tivesse armado a confusão com o banheiro feminino, arrebentando a torneira e jogando tinta de carimbo e areia – que trouxe de casa -  em tudo, espalhando aquela “josta gosmenta” por todo o corredor, provavelmente ainda estaria lá.
   Agora estava as voltas de novo, com o período de maior atividade da cidade.
   Contemplava os visitantes chegando, a rotina a volta da Cooperativa, os negócios e a vida de todos a volta desta época. Observava as pessoas a sua volta, na escola ou no bairro em que morava, que davam meia volta para não falar com a “novata esquisita”.
   Arícia estava começando a odiar a primavera!!!
   Com o passar do tempo, toda vez que se sentia assim depressiva, acabou pegando a mania de andar sozinha vagando a esmo por aí. Foi assim que descobriu que após uma praça central, onde os eventos principais da cidade sempre aconteciam, após algumas ruas, havia uma outra praça mais vazia (que estranhamente estava sempre vazia quando ela passava por alí, de dia ou de noite).
   Alguns dias após o “entrave” com o sóbrio professor de história, Arícia em suas taciturnas mudanças de humor, decidiu que estava um dia muito bom,para desperdiçá-lo com outra ilustrativa aula sobre “vomitatios”. Assim ela comçou a andar por aí, para passar o tempo.
   Passou por uma sorveteria, e após “3 andares” de chocolate, passas ao rum e nozes, continuou andando a esmo,.
   Ficou algum tempo na praça principal.
   Peranbulou pela cidade, e quando começou a se por o Sol, foi andando até chegar a sua “tão apreciada pracinha”.
   Contudo, desta vez havia algo de difente.
   Havia uma mulher sentada  em seu banco favorito – coisa que ela considerou quase como uma ofensa – vestida com uma camisa borada, com esperais no centro, e uma calça jeans escura, e enormes tamancos de madeira.
   Tinha cabelos e olhos castanhos, mas era de uma pele muito clara, quase pálida.
   Quando Aricia passou pelo banco, já na intenção de continuar andando e voltar depois, quando a intrusa já não estivesse mais ali, ela chamou-a para perto:
-          Olá!! Vejo que nos encontramos de novo por aqui!
-          Como assim?? Eu sempre venho aqui, e sozinha, e nunca encontro ninguém nesse lugar.
-          Ah, sim. É que eu sempre estou ali perto da esquina, quando você passa, e sempre te vejo quando venho aqui.
-          Bem....É estranho, mas eu nunca sequer percebi que houvesse mais alguém por aqui....Bom eu já vou indo.....
   Quando disse isso, e já estava se pondo a caminho, sentiu tonturas e um mal estar muito grande, tão grande que arcou o corpo.
   Era como se alguma coisa agarrasse seu estômago por dentro, e lhe causasse a sensação de estar prócimo de algum animal morto.
   Arícia nunca havia sentido nada tão ruím antes.
   Quando procurou se endireitar, para tentar se recompor e olhou em volta, viu algo que gostaria de não ter visto.
   Pareciam pessoas, enraivecidas, violentas, que estavam arremetendo para cima da “intrusa”.
   Grunhiam coisas, algo como “...Belgermir manda lembranças...”.
   A mulher ficou em pé, imediatamente após Arícia ter ouvido isso, mas manteve-se impassível no mesmo lugar.
   E no momento seguinte, outra coisa aconteceu.
   Arícia estava sentindo-se tão mal, que durante os instantes em que observava atônita a sena, não conseguia formular nenhum pensamento conciso.
   Apenas para seu horror, viu uma forma sinistra, mover-se e estripar todos os que haviam arremetido contra a mulher com quem havia falado.
   Mas algo não estava certo.
   Seus olhos “diziam” que era um homem, mas sua mente “dizia que era outra coisa”. Uma coisa peluda, e enfurecida.
   Na verdade esse choque causava-lhe vertigens, que só pioravam seu mal estar.
   A coisa peluda se voltou para Arícia, e veio até ela.
   Estava bem escuro, Arícia pensava no motivo pelo qual as malditas luzes da rua não estavam acesas.
   Quando chegou perto, o medo se abateu nela com tanta força, e a náusea foi tanta, que acabou desabando quase sem sentidos.
-          Hlokk, quem é a garota???
-          Alguém que comecei a vigiar, desde que viemos para cá, para as festividades da Lady.
-          Uhm....Sente algo de útil nela??? Quer dizer, fora a patológica falta de educação que ouvi, antes de ter que “conversar” com os amiguinhos de Belgermir???
-          Você e esse seu humor horrível!!! Sim, eu suponho que exista algo nela!
-          Bem, nesse caso, vamos leva-la a algum lugar para que desperte. E depois tratamos disso, certo???
-          Certo! O hotel parece perfeito!
-          HOTEL????? Cisnezinho Estridente, acho que você tomou hidromel demais ontem!!!
-          Rauthiwolfs.....Eu já avisei para não usar essa brincadeira comigo....Agora vamos logo, traga a criança!!
-          Umphfff.....E ainda vou ter que carregar essa vareta mal humorada.....

*

   “...Dor...??!!???!!...”
   “...Sim...mas e esse escuro??? Onde estou?....”
   “...Parece um quarto...As cortinas são grossas, ou parecem ser, não dá para ver muito bem. Mas como eu cheguei...Só me lembro daquela ânsia de vômito, e daquela coisa com pelos, ou será que era delírio???!!??...”
   “...Mas como vim parar aqui?...”
   Arícia pensava em tudo isso, enquanto procurava se situar.
   Estava sentindo-se mal, e começou a perceber que já era tarde, e que sua mãe iria lhe dar um sermão daqueles em que no final, a tão citada diferença do comportamento dela quando tinha a mesma idade, sempre era frizada como uma espécie de tortura medieval.
   Percebeu qua alguém estava mechendo na maçaneta. Fechou os olhos então e fingiu que ainda estava dormindo.
   Ouviu os passos – aliás muito macios – chegando até a cama.
   Sentiu que alguém havia sentado-se na beirada da cama.
   Então por um tempo que pareceu a Arícia uma eternidade, quem quer seja que estava ali sentado, ficou em total silêncio.
   De repente:
-          Pare de fingir que está dormindo menina! Abra os olhos para sabermos se você está inteira de pois do que viu!
   Arícia abriu os olhos, e com a careta mais emburrada que alguém poderia encontrar sentou-se com os braços cruzados, encarando a mulher a sua frente.
-          Quem é você? Porque eu estou aqui? Olha se é sequestro, vou logo avisando que os meus país comem mortadela e arrotam peru.............
-          Frigga me dê paciência!!!! Rauthiwolfs tinha razão. Você é a criatura mais mal educada que os Deuses já permitiram por os pés em Midgard!
-          Mal educada é a...................
-          CALE-SE!!!!
   Arícia normalmente não se intimidaria com uma discussão dessas.
   Na verdade até gostava de provocar discussões, as pessoas se intimidavam com ela, e ela sentia sempre que estava no controle com isso.
   Mas agora, em frente dessa estranha mulher pálida, as coisas não pareciam estar indo muito bem.
    Arícia pela primeira vez em sua vida, estava intimidada. Havia algo como uma vontade, saindo dos olhos dessa mulher que não permitiam que ela consegui-se retrucar como sempre fazia.
-          DIGA-ME AGORA O QUE ESTÁ SENTINDO! DIGA-ME DO QUE SE LEMBRA!
-          Eu...Eu me lembro de uma pessoas esquisitas, iradas indo contra você no banco. E começou a me dar um mal estar, uma tontura muito forte. E depois.....ehrrr....Tinha uma coisa peluda....Eu acho....Estranha, lembrava um viralata que eu tinha...Peludo e bravo........
   Arícia olhava a mulher, e notou de relance algo similar a um sorriso no canto do rosto, quando citou o cão.
   Nesta mesma hora, ouviu algo como um resmundo e um murro fora do quarto.
-          Uhmm....Diga-me você está melhor agora??
   A pressão que estava forçando Arícia havia desaparecido de todo, na forma como  a mulher pálida falava com ela agora.
-          Sim! Um pouco melhor! Ehrr.....Desculpe perguntar....Ehrr...Onde é aqui?????
   “...Quanto esforço para demonstrar alguma educação para perguntar!!!...Tisc...Que lástima...Bem pelo menos não tive arrancar isso a força. E ao menos, é um sinal de alguma força...”
-          Aqui é o Hotel Flor de Liz! Suponho que conheça?
-          Ah, sim! Rura das Tulipas não é mesmo?
-          Isso! Você estava desmaida, e não achamos correto deixá-la jogada por ali. Assim nós a trouxemos para o Hotel!
-          Mas e a segurança??? Ninguém estranhou vocês entrando carregando um corpo???
-          Na verdade, a gerência não tem a menor idéia de que estejamos nesse quarto. Ou melhor dizendo, que tenhamos dado entrada na recepção!
-          Quê???!!!
   Era a gota dágua.
   Estava em um quarto de Hotel invadido, com uma mulher esquisita e provavelmente perigosa, e ao que parece com pelo menos mais alguém por ali. Ninguém sabia que havia sido trazida. Ninguém poderia sequer dizer para onde teria ido.
   “...Que espécie de Hotel era esse, que não tomava cuidado com seus hóspedes. E que não fazia nem vistoria nos quartos. E o que dizer então das arrumadeiras? Como é que ninguém repararia em uma mulher alta, loira, olhos claros, muito pálida, vestida com aqueles tamancões – que aliás deveriam fazer muito, muito, muito barulho quando ela andava - ?????? Isso é o cúmulo...”
-          Menina...Aquiete sua mente...Ninguém aqui está pretendendo fazer nenhum mal a você....
-          Fale só por você....Aquela história do viralata peludo não me desseu pela goela ainda!!!
   Naquele momento, entrou no quarto um homem um pouco mais baixo do que a mulher – o que não dizia muito, muitos homens altos eram mais baixos do que aquela mulher . Tinha cabelos lisos e compridos até o pescoço, estava usando roupas sociais. Sapatos impecavelmente engraxados. Gravata arrumadinha e terno engomado.
   Parecia um daqueles sujeitinhos chatos e desagradáveis – parentes maternos aliás - que a mãe de Arícia costumava adular quando apareciam em sua casa. Todos eles iguaizinhos, como se fossem fabricados em uma linha de montagem.
   O problema eram os olhos daquele sujeito.
   Eram castanhos, mas pareciam perfurar a alma de quem os encarasse. E emitiam uma espécie de ira, algo como fogo sendo constantemente controlado.
-          Rauthiwolfs!!! Que idéia é essa de entrar sem avisar????
-          Calma, calma Hlokk!!!! Eu apenas vim avisar que a hroa está passando. E estamos perdendo tempo com sua amiguinha bravinha.
   “...Hlokk? Esse é o nome dela??? Que coisa mais esdrúxula! Será que ela, ou eles, são estrangeiros???...”
-          Você não muda??? Eu sei que a hora está chegando. Mas estou tendo algumas idéias, que talves sejam interessantes...Sabe, para as festividades.....
-          Ah, não...Não, não, não...Não comece com isso de novo...Você nunca perde essa maldita mania...Depois sou eu que vou ter que bancar a baba de “boca suja”, enquanto você está ocupada. E ainda tem aqueles debilóides do Belgermir enfiando os pés pelas mãos, e tentando estragar as coisas....Não, não, não.....
-          Rauthiwolfs...Fique quieto!!!! Você sabe muito bem que esse pequeno “detalhe imprevisto e mal educado”, póde fazer parte diretamente das festividades....As vezes acontece assim!!
-          Grunhham...Grunhham...Arrghrammm......Droga, droga....Tá certo, tá certo!!!
   E saiu de forma enérgica do quarto!
   Arícia começou a olhar para a mulher, enquanto ela observava o sujeito de nome ainda mais estranho do que o dela, se afastando.
   Descobriu que havia algo de familiar, não exatamente uma memória, mas algo nela era muito chamativo e parecia produzir uma “coceira” naquele canto da mente, onde abarrotamos nossas lembranças e coisas que queremos esquecer, ou que não se encaixam com a vida que levamos.
-          Será que eu poderia ir par acasa agora?????
   A mulher não respondeu de imediato.
   Primeiro ela olhou para o lado, para uma parede branca e sem quadros que havia naquele quarto.
   Demorou um longo tempo ali parada.
   Arícia estava começando a pensar que em seguida, provavelmente, ela iria ter um ataque – afinal depois daquela conversa sobre festividades, dando impressão de que falavam dela e do comportamento dos dois, sem mencionar que parecia que fazim algo assim a algum tempo.
   Podia até mesmo ver as manchetes nos jornais: “Adolescente esquartejada é encontrada na lixeira de Hotel. Polícia investiga, mas não tem indícios para apontar suspeitos! “  .
-          Calma menina! Já disse a você que nenhum de nós quer o seu mal! Mas o que está nos acercando lá fora, pensa de forma bem diferente. E já que nos viram naquela praça, deve estar pensando que está conosco. O que faz de você um alvo também.
-          Alvo? De quem? Que história é essa?????
-          Digamos que por enquanto o melhor a fazer é você se acalmar. Vou até a cozinha preparar chá! Quando estiver pronto, chamarei você e poderemos discutir com calma as coisas nas quais você acabou se metendo.
   Levantou-se então e saiu do quarto.
   Arícia estava atônita. Era demais para sua cabeça.
   “...PORQUÊ NAÕ FUI PARA A ESCOLA??? PORQUE EU TINHA QUE METER NA MINHA MALDITA CABEÇA QUE ERA UM BOM DIA PARA MATAR AULA???...”
   Após alguns minutos, ouviu a voz da tal “Hlokk”, se for esse mesmo o nome dela, chamando-ª
   Resolveu então levantar-se e pelo menos saber qual seria a “loucura” que iriam contar a ela.
   Após alguns passos, chegou até a sala.
   Era pequena, havia uma TV de plasma, dois sofás pequenos, e  uma mesinha de centro.
   O sujeito “engomadinho”, estava sentado lendo uma revista.
   “...Moda Atual??? Eca....Tinha que ter um motivo para tanto cuidado com roupa...Sabia que deveria haver algo de estranho com esse pessoal muito “emperequetado...”  .
   Estranhamente o sujeito encarou-a nos olhos exatamente enquanto ela pensava essas coisas. E o mais estranho, é que eles literalmente faiscaram quando  fez isso!!!
-          Hlokk sua “convidada” já esta aqui...Mal educada como sempre....
-          Rauthiwolfs, seja mais paciente!!!
   A mulher já estava a caminho, com duas xícaras contendo algo que exalava vapor e um odor muito agradável, quando disse isso ao sujeito.
   - Muito bem menina...Beba isso e vai se sentir melhor!!!
   Arícia pegou a xícara, e como também viu a mulher bebendo, tocou no líquido com os lábios e provou um pouco dele.
   Era muito bem, realmente, e parecia trazer um bem estar como em poucos dias ela sentiu.
-          Díga-me...Tem algo que você gostaria de perguntar agora???
-          Bem...O que aconteceu naquela pracinha??? Quem eram os sujeitos loucos de raiva que eu vi? Porque queriam bater em você e .......
-          Não! Bater não! Matar é a palavra mais correta ......
-          Rauthiwolfs...Pare de assustar a menina!
-          Mas é verdade, oras ............................
   Arícia engoliu em seco. Depois bebeu um pouco mais do chá, para se acalmar e conseguir formular as palavras.
-          Eu quero saber o que está realmente acontecendo aqui???
-          Muito bem menina, vou contar ...... Mas talves você não consiga acompanhar muito bem, aquilo que vou lhe dizer.
   Arícia sentiu um nó no estômago, exatamente quando aquela “coceira no fundo de sua mente”, começou a ficar mais forte.

*

   Clara estava em casa, após uma tediosa tarde tentando aproximar-se da família de sua prima Clotílde.
   Deu um “jeitinho” de falar com uma conhecida mútua, mais chegada – e bem mais pobre do que Clotilde – que lhe confidenciou que a prima gostava de passear pelo centro, próximo ao teatro, as terças feiras no meio da tarde.
   Parece que gostava de se exibir como um “exemplo” para ser invejado, por todos na cidade. E na opnião de Clara, ela sempre conseguia ser perfeita nisso, mas isso não era nada de extraordinário mesmo, afinal com todas aquelas cirurgias pláticas, botox,  até mesmo aquele produto francês que deu tanto problema no começo do ano, o que era muito caro e prometia rejuvenescimento e juventude eterna.
   Conseguiu se esgueirar para perto do teatro, e viu Clotilde saindo de lá, e indo para as lojas mais próximas.
   Qualquer um que a partir daí, começa-se a observá-las veria uma paródia dos programas de televisão, sobre homens sombras.
   Clotilde ia a frente, passos firmes, decididos do alto de seus sapatos sociais de vários centímetros de altura.
   Clara ia atraz, com sapatos sociais similares, contudo mais pálidos – e onde se poderia ler, quando se prestasse atenção toda vez que ela levantava qualquer dos pés, a palavra “Brechó-Ponpon”.
   Se Clotilde balançasse os cabelos, para chamar a atenção de algum exemplar do sexo oposto, que poderia tornar o final de sua tarde de exibição de força, mais interessante – e dizem que isso estava se tornando um problema para ela mesma, coisas da diferença de idade dela e do marido. Clara faria o mesmo, mas pareceria algo como os melodiosos movimentos de um robô.
   A certa altura, ficou emparelhada com a prima, e acenou para ela.
   Clotilde simplesmente olhou com o canto dos olhos, e depois, desviou o olhar indo em direção a seu carro. Visivelmente frustrada por ter que encerrar mais cedo, seu passeio das terças feiras.
   Clara por sua vez ficou envergonhada, mas havia o alívio de ninguém que conhecesse naquela cidade ter visto Clotilde virar-lhe as costas.
   Já deveria estar acostumada a isso, desde que estava no colégio de freiras junto com a prima era a mesma coisa.
   A prima era a acediada pelas amigas, e ela mesma era a ignorada (e naquela época estava em condições bem mais prósperas do que atualmente).
   Depois de algum tempo, começou a ter a mania de imitar a forma de arrumar o uniforme, ou mesmo de fazer as coisas exatamente como Clotilde fazia.
   O resultado foi que começaram a dizer, durante os horários de intervalo, que o negativo mal feito de Clotilde estava passeando pelo pátio.
   Depois da formatura, soube que Clotilde havia se casado com um homem muito bem relacionado socialmente, que inclusive possuía um enorme capital, quase tão grande quanto sua idade.
   Clara não conseguiu suportar a idéia, e se poz a conseguir seu “empresário de sucesso”.
   Queria um homem que lhe desse tudo de bom e de melhor, e que parecesse ser exatamente o mesmo tipo que sua família acertou para Clotilde, além de muito bem relacionado com as melhores famílias.
   Duas dessas coisas ela conseguiu.
   Carlos era tão impotente como pessoa, quanto o esposo de Clotilde era ela.
   E vinha de uma família antiga, de nome muito conhecido entre os mais ricos, e contudo, totalmente falida.
   A parte da falta de dinheiro, ela fingia não ver, apesar de Carlos constantemente avisá-la que seus planos para depois do casamento, eram no mínimo, insanos.
   Ou podemos dizer que, ela vivia em um mundo de ilusão perpétua e detestável, para Carlos.
   E naquela tarde, quando Clotilde demonstrou como sua vida não mudou em absolutamente nada, e como a dela também não. Clara descidiu que  alguém teria que pagar por aquilo.
   A culpa com certeza era de Carlos, que como sempre não correspondia ao que ela considerava como “prático e indispensável”.
   Mas ela não conseguia descarregar em Carlos. Brigar com ele era como falar com uma parede fria, burra e insensível, e na maioria das vezes, ela ficava falando sozinha dois minutos depois de começar a destilar veneno.
   Não! Definitivamente não!
   Já com Arícia, a coisa era bem diferente.
   Ela gritava, ou fazia algo na escola, ou com outras pessoas ou vizinhos. E clara podia descarregar toda a raiva diretamente nela, afinal ela era uma criaturinha cheia de defeitos, exatamente como a família de Carlos, um corretivo somente poderia ajudar.
   Então foi para casa, e começou a esperar pela hora em que Arícia costumava chegar.
   Estava ansiosa, e até mesmo ensaiou algumas coisas que proibiria a filha de fazer, tais como nada de ouvir suas detestáveis músicas até se corrigir por seus erros, ou, nada mais de andar por aí como uma criatura sem pai ou mãe, toda desengonçada e desarrumada, e assim jogaria algumas de suas roupas fora.
   Estava pensando com muito carinho sobre esta última hipótese, quando com o canto do olho, parecia ter visto algo estranho.
   “...Será que foi insolação???...”
   Então quando começou a retomar seus planos para a “tortura da tarde”, aconteceu de novo.
   “...Sim...São olhos...Eu ví...Alí na parede....Espere!!!!!!! Lá estão eles denovo!!!!!!!!...”
   E o medo imediatamente após a  surpresa começou a percorrer-lhe o corpo.
   Mas era estranho, somente via aqueles “...olhos zombeteiros...”, quando não olhava diretamente para a parede no canto direito da escada, na sala de estar.
   Então decidiu que isso devia ser coisa de sua raiva, e que era mais um motivo para punir Arícia, afinal de contas a menina se comportava tão mal, que devia estar começando a afetar a saúde de seus nervos.
   Nesta hora, “...os olhos...” reapareceram em sua visão periférica, mas não sumiram quando ela olhou diretamente para eles.
   E eram tão castanhos, tão intensos, tão profundos, e tão grandes, tão grandes. O mundo todo parecia caber neles.
   Clara agora se via naqueles olhos!
   E via a si mesma como uma mulher prendada, preocupada com a casa. Aliás casa que estava eternamente suja, pois não havendo dinheiro para uma empregada, e ela mesma sempre se vendo como uma “...Mulher da Alta Sociedade...”, jamais tocou em uma única vassoura, desde que se mudaram.
   Via a sí como alguém preocupada com o lar, e se ocupando dos problemas que tinha que fazer todos os dias.
   Então um fato inusitado na vida da família de Arícia aconteceu.
   Passos de alguém caminhando até o canto, próximo da porta da cozinha, onde um objeto que  era quase alienígena nas mãos que agora o empunnhavam, começou a ser esfregado pela açoalho, algo que somente Arícia havia feito, em raras ocasiões de desespero, em todo aquele longo ano.
   Clara começou a se ocupar em algo útil, pela primeira vez em toda a sua fútil vida.
   E horas depois deste “estranho” evento ocular, quando Carlos chegou em casa, ele mesmo foi tomado de uma surpresa que o deixou pasmo.
   Em toda sua vida, a rotina de sua chegada em casa era a mesma.
   Clara brigando com Arícia, desde que a menina começou a andar. E sempre alguma conta a ser paga de algum restaurante, onde um pedido de alguma comida “ruím e mal feita”, seria a única forma de alimento que teria até o café da manhã, que Clara preparava zelosamente, com café instantâneo feito e água meio morna.
   “...Será que raptaram Clara, e colocaram um Clone mentalmente são no lugar dela????...”
   Da sala de estar, até a cozinha, a casa estava com cheiro de limpesa, com aparência de limpesa, e com aspécto de organização.
-          Querido? Você já chegou, e eu nem terminei direito a receita do jantar...Fiquei tão ocupada com a limpesa no final da tarde...
-          Receita?? Do...jantar???? Mas...mas...Você nunca cosinhou antes!?!?!???
-          Ah, sim...Eu experimentei algo que li em uma revista de moda, sobre alguns pratos simples...Acho que ficou bom. Não quer experimentar?????
-          Sim, sim, claro....Ehrrr....Você não estaria para me dar alguma notícia estranha, ou chocante, não é mesmo???
-          Não seja tolo! É claro que não! Parece a té que nunca te recebí direito, quando você volta do trabalho...
-          Na verdade......
   Calou-se!!!
   Era melhor manter pelo máximo de tempo possível, o que quer que fosse que estivesse acontecendo, mesmo que só durasse por alguns minutos, já seria algum alívio.
   E na verdade, o jantar estava muito melhor do que esperava.
   Melhor do que aquela “comida ruím de restaurante”.
   A esposa perguntava do dia de trabalho.
   Carlos boquiaberto, respondia.
   A esposa o encorajava por algum detalhe ruím do dia.
   Carlos com o coração quase saíndo pela boca, agradecia.
   E quando Clara, ao terminarem o jantar, o beijou como nas raras ocasiões de muitos anos antes, e ambos fizeram o que não faziam a muito tempo, mas de uma forma que nunca antes havia sido feita – ou seja, em um quarto limpo.
   Não pararam para pensar, nem em um minuto sequer em onde estaria Arícia.
   Carlos somente estranhava, durante o espaço entre o adormecer e o final das carícias com Clara, a estranha figura, vista com a visão periférica, de “...olhos grandes e castanhos...”, que pareciam sempre estar observando dos cantos.

*

-          Como é ??? Gigantes??? Deuses??? Olha está meio difícil de engolir isso...
-          Eu disse que você talves não conseguisse “apreender” o que eu iri dizer! Mas foi você mesma que me pediu par falar!
-          Eu sei mas é muita loucura de uma vez só...Se não tivesse visto...Se é que ví...Se é que não estou alucinando agora também....Ahh, sei lá.......
-          Calma, calma! Vamos começar devagar. Díga-me o que foi mais difícil de entender???
-          Bom.....Que tal aquela parte do tal Bergelmir!!!!
-          Ah, não....Hlokk, se eu te ouvir repetir isso de novo para essa tonta meio tacanha, eu vou enfiar minha cabela na quina de uma parede....
-          Rauthiwolfs, cale-se!!! Isso é muito difícil para os humanos aceitarem, mesmo com um tempo razoável para isso. O que dizer de algumas horas?????
   “..Os humanos aceitarem??? Será que ela pensa que não é humana? E que maluquice, essa história de guerra antiga...” .
-          Menina, já disse mais de uma vez. Boa educação é algo muito bom,  e eu gosto!!!
-          Mas eu não disse nada....
-          Mas pensou coisas como “...maluquice...loucura do espeto oxigenado pálido...rabugísse do engomadinho...”, e outras coisas que a educação me impede de reproduzir!
-          !!!!!!!!!!!!! Você sabe o que eu pensei??????!!!!!!
-          Voltemos a explicação. Nosso tempo é curto.
-          Como você mesma me pediu, falemos do pai de todos os Jotuns atuais.
-          Após a inundação que deixou vivos apenas Belgermir e sua Esposa, da raça dos Jotuns. Eles se multiplicaram com o tempo, e com o aumento de seu número, aumentou também o ódio contra Alfather, e os :Aesires. E encurtando a coisa toda, muitos humanos que são mais dados a naureza dos Jotuns que não são mais desenvolvidos, criaram coisas como  “tribos de adoradores de Thurses”, que se expalharam por aí, e hoje em dia tem nomes diferentes, e aparência similar.
-          Então aqueles sujeitos eram de uma dessas “tribos”???
-          Sim! Mas estes são até mais “inteligentes” do que os outros tipos de “tribos”. Estes sabem que adoram Thurses. A maioria é agressiva e adora Thurses por nomes diferentes, e na maioria das vezes eles se mantam mutuamente, em nome de adorações diferentes ao mesmo Thurse.
-          Mas e isso de “Jotuns desenvolvidos”? O que é isso?
-          Há Jotuns que são Deuses ou Deusas. São poderosos, sábios, e cheios de virtudes. E estão convivendo com os Aesires, ou mesmo os “desposaram”. E há coisas nauseantes como os “Thurses”, que são o que você chamaria de “falhas de uma reação química em andamento”. São intrusos e causam entropia.
-          Entropia???
-          Frigga, ajude-me e me dê paciência! O que estão ensinando nos dias de hoje nas escolas???? Entropia quer dizer “extinção final”.
-          Ah...Bem!!! Mas porque você chamou esses “Aessaris” de “Venares”, quando falou da primeira vez???
   Rauthiwolfs, começou a bater sua cabeça em uma parede nesse ponto da conversa. Ele resmungava, grunhia e rugia, enquanto olhava para a pobre Hlokk, que estava a ponto de cometer um “asnocídio”!
-          Menina, você não presta atenção em nada que houve, não é mesmo???? Não é “Aessaris”, é Aesires, ou melhor dizendo Ases. E não é “Venares”, é Vanes!!! E os Vanes são uma casta de Deuses diferentes dos Ases. Eles nasceram durante a “Grande Indundação” que matou os antigos Jotuns, em guerra com os Ases.
   Arícia ficou quieta, tentando digerir tudo que lhe foi dito. E era muito difícil lidar com tudo que houviu.
   Quando você está acostumado a saber coisas a partir de um livro com respostas prontas – tá certo que se contradizendo constantemente, e as vezes bem “tosco”, pra falar a verdade – e de repente lhe mostram coisas diferentes, fica muito estranho olhar para o mundo.
   Além disso, era coisa demais para tão pouco tempo.
   O silêncio de Arícia foi quebrado por uma pergunta:
-          Você me falou, que os sujeitos que estavam ali na praça, haviam sido enviados por um motivo específico, além da inimisade antiga. Qual é esse motivo???
-          Freija!!!
-          Quem ????
-          A Deusa Vanir da Feitiçaria e Sensualidade. A muito tempo atraz um Deus chamado Loki, que tinha o hábito de falar muito e na maioria das vezes acabava “cantando a seu próprio dano”. Disse a um Jotun que estava construindo a Barreira de Aesgard, que ele não conseguiria terminá-la toda em 1 terço do tempo.
-          E dái? O que aconteceu???
-          Ele estava conseguindo cumprir a aposta. E queria ser pago de acordo com os termos combinados.
-          Que termos?
-          Ele queria além dos terouros prometidos, Freija em matrimônio. Estava até planejando o local onde passaríam a lua de mel.
-          Como foi que ela saiu dessa enrascada???
-          Você quer dizer, como é que Loki saiu dessa enrascada não é mesmo??? Afinal lhe disseram que se o Jotun conseguisse terminar em tempo, Yggdrasil ficaria sem Loki nela! Então, ele se tornou uma enorme égua, e seduziu o cavalo do Jotun, que fazia todo o trabalho pesado desse gigante, fazendo com que ele ficasse todo atrapalhado, e não conseguisse terminar a tempo. Então ele ficou irritado, e tentou destruir o que havia criado.
-          E conseguiu???
-          Não!!! Donnar teve uma conversa mais, abrasiva, com ele.
-          E foi só esse o problema???
-          Não. Um Rei Jotun roubou o Mjoullnir de Donnar, e exigiu Freija em troca para devolvê-lo.
-          Puxa. Essa Freija deve ser muito bonita, pra todo mundo querer ficar com ela!!
-          É ...Talves vá além disso. Se você a vir , saberá do que estou falando!
-          E o tal do Martelo? Donnar o teve de volta???
-          Sim! Loki se dirsfarçou de serviçal, e escavou o chão com as próprias mãos, e devolveu o martelo para Donnar, que eliminou todos os Jotuns, mesmo as mulheres Jotuns.
-          Nossa, o tal do Berlgermir não deve ter gostado nada disso não é???
-          Você acabou de captar a idéia. É aproximadamente este o motivo para que tenham dado o pequeno trabalhinho,  durante o começo da noite, e bem como o transtorno que provavelmente nos darão, quando tivermos que fazer o que estamos por fazer!!
-          O que você quer dizer com isso? Tem algo de útil para fazer nessa cidade sonsa???
-          Com certeza! Freija virá para esta “Cidade das Flores”, para o Grande Blot de Ostara, este ano.


*

   Passava da meia noite.
   Arícia estava muito preocupada, escutou falar muito a respeito do que estavam por fazer, e em sua cabeça estava também a enorme bronca que provavelmente tomaria de sua mãe, com os costumeiros “um-hum um-hum”, que seu pai fazia o tempo todo, como se fosse um fundo  musical de péssimo gosto.
   Havia reparado que por duas vezes, dentro do carro em que estavam, a tal Hlokk ficou exatamente como antes, parada pensando, olhos estáticos, com as pupilas dilatadas.
   Chegou a pensar se ela não estaria usando um “ácido”, ou coisa assim, mas lembrou-se que de alguma forma bizarra, a mulher paricia o tempo todo saber tudo que ela estava pensando, e procurou afastar sua mente disso, pra não ouvir mais nada – a mulher lhe dava arrepios.
   Principalmente quando começava a contar sobre aquelas coisas esquisitas, e quando ela um pouco antes de ficar estática, falou sobre a palavra “...SITHI...”, que Arícia demorou um pouco para “engolir” como sendo originária da tradição deles, a coisa ficou pior.
   Hlokk havia explicado a Arícia, que Sithi era um termo para a guarda de honra tanto da oferenda, quanto do Blot em si, e que com a iminente chegada de uma Deusa a um Blot, seria expressamente necessário um Sith adequado, e uma “...oferenda...” adequada.
   O problema é que a palavra oferenda foi frizada com um sorriso de canto de boca, que a deixou amedrontada com as possibilidades.
   E com Rauthiwolfs, resmungando o tempo todo, não lhe parecia que seu destino com os dois seria melhor do que com aquelas coisas, e talves fosse até mesmo pior, pelas conjecturas de Arícia.
   Enquanto pensava nisso, Hlokk saíu do transe em que estava e olhou diretamente para ela e sussurou em seus ouvidos, para que Rauthiwolfs não ouvisse tudo com clareza:
-          Não se preocupe com ele. A natureza do que ele faz, deixa-o ácido com estranhos!
   Arícia fez menção de perguntar: “...O que é que ele Faz, que o deixa assim???...”. Mas Hlokk, tapou seus lábios com a ponta dos dedos, de forma suave, e lhe disse – muito baixo – que:
-          Ele pratica shamanismo, é um Berseker. Ficou bravo com a  história do “vira-lata” que você falou, porque o “viralata” era ele mesmo, pelo menos era o que sua mente dizia para seus olhos.
   Arícia apenas ficou mais confusa com a explicação, mas descidiu que deveria evitar perguntar mais detalhes, o sujeito poderia estar com a “vacina anti-rábica” vencida!
   Por algum motivo, Hlokk começou a gargalhar dentro do carro, e Rauthiwolfs encarou-a sem entender direito o motivo, chegou a olhar pelo retrovisor para Arícia, que estava com cara de inoscente e aspécto assustado, e recomeçou a resmungar algo sofre “...cuidar de fraudas e babadores”.
   Começou então a pensar sobre o que aconteceu quando saíram do prédio.
   O “engomadinho” ficou sismado o tempo todo, e olhava para todos os lados, e quando entraram no carro, ficou todo “irritadinho” com um pessoal que estava em um bar em frente, tomando cerveja e conversando.
   Arícia não entendia naquele momento,  o porquê de tanta raiva, na verdade parecia a ela que o sujeito era paranóico.
   Tinham alguns rapazes bonitos – para Arícia, pelo menos era o que parecia – algumas garotas, e um sujeito mais velho no meio da roda, que parecia ser o “centro da festa”.
   Então Arícia viu algo estranhíssimo, que se não explicava, pelo menos dava mostras dos motivos para o “engomadinho”, estar tão preocupado.
   Todo o grupo que ali estava, parou de falar, quando os três entraram em um carro, e os  ficaram fitando sérios. Depois disso Arícia sentiu-se mal, como  na praça, era como um mal estar que não ia embora, e quando olhou para frente, viu que os sujeitos já não eram tão bonitos como pareciam a princípio.
   Um deles tinha na verdade o nariz muito grande e quase disforme,  outro possuía olhos desproporcionais, as mulheres pareciam que precisavam se barbear. O sujeito no centro de tudo era o único que não parecia mudar, e quando Arícia olhou de novo para o grupo, parecia um “Show de Horrores”, que não falavam uns com os outros, na verdade,  a impressão que causavam é que rosnar era a única coisa que saberíam fazer.
   Ela não conseguia entender como poderia tê-los visto de outra forma, a poucos instantes, e nem como o pessoal que estava em volta achar tudo tão natural, ou mesmo os garçons estarem servindo tão naturalmente um grupo tão hediondo.
-          Não se preocupe menina! As pessoas não os vêem como realmente são! Na maioria das vezes até gostam de estar perto deles.
-          Como é que pode? Quer dizer eu também achei que eram até “bonitinhos” a princípio, mas depois...É muito esquisito!!!!
-          As pessoas vêem o que querem ver. E como a forma de ser deles reflete o que eles são, e como eu disse a você, como a maioria das pessoas se acostumou a adorar essas coisas, por outros nomes estranhos e diferentes, e se acostumaram ao que eles são como um objeto de desejo, todos eles acabam se dando muito bem.
-          Mas, e depois??? Alguma coisa pode acontecer a quem está perto deles??
-          Bem...Pelo que sei, pode ocorrer desde a perda de inteligência até a completa perda de personalidade. A pessoa se torna um “Draukkar” propriamente dito!
-          Dropar??? Isso não eram uns barcos que os vikings usavam????
-          Eu disse DRAUKKAR, um “Morto que Anda”! E não Drakar!
-          Ah, sim.........Olha eu estou muito preocupada com a minha família!!! Acho que na hora em que eu chegar em casa     – congelou com a idéia da “oferenda, mas continuou falando -    minha mãe vai querer me comer viva!!!!
-          Não se preocupe. Eles a essa hora estão dormindo, após terem feito as pazes, e namorado a noite toda. Nem se aperceberam que você não voltou ainda para casa.
-          MEUS PAIS NAMORANDO??????? EHEHEHEHEHEHEHEHEH....Desculpe pela gargalhada, mas eu penso nessa possibilidade como algo mais difícil do que um “elefante alpinista”!
-          Sossegue, você vai saber logo logo, se tudo correr bem esta noite, e escaparmos vivos. E antes que eu me esqueça, tire dessa sua cabeça desmiolada de adolescente, essa idéia absurda de que vamos assar você viva em oferenda a Freija!!!!!!!
   Rauthiwolfs não se contendo:
-          Assa-la viva? E para Freija??? Que idéia nauseante! Teríamos que pica-la. Depois separa-la em pedacinhos pequenos e fáceis de cozinhar. E ter a certeza de que retiramos todo esse sangue ruím da carne, para não contaminar a “oferenda”! EHEHEHE!!!!!!!!!!
   Arícia ficou completamente pálida com o sorriso malígno que Rauthiwolfs fez, arreganhando os dentes para ela, pelo retrovisor.
-          RAUTHIWOLFS!!!!!!...Pare de assustar a menina!!! Oh Frigga...Como alguém pode ser tão insuportável como você???
-          Anos de prática “Cisnezinho Estridente”!!!
-          RAUTHWOLFS......!!!!
  Hlokk desistiu de continuar qualquer repreenção.
   Para Arícia parecia evidente que a consequência, seria aumentar o repertório de “doçuras” ditas por Rauthiwolfs.
   Ela então começou a ponderar sobre a tal coisa importante, que tem que ser feita no momento exato em que a primavera acontecer.
   Arícia ficou em silêncio por algum tempo, recostada no banco dos fundos, com os braços cruzados.
   Algumas pessoas passavam a vida toda esperando por algo que venha a acontecer com suas vidas, que dê sentido, que mostre que as coisas vão além de nascer, crescer, acasalar com algum imbecil menos porco, e ter outros tontos que vão fazer exatamente a mesma coisa.
   Arícia estava começando a pensar que essa vida repetitiva, de que muita gente tanto reclama, é algo até reconfortante, afinal de contas ali você sabe exatamente com vai ser o próximo momento.
   As últimas horas se mostraram mais do que caóticas, para o mundo de uma adolescente mal humorada, como  era o caso de Arícia.
   Olhou para traz, e notou que havia a luz de um automóvel a certa distância, vindo na mesma direção da estrada onde estavam.
   Arícia pensou por um momento,  que pudessem ser aqueles que estavam no bar.
   Congelou no mesmo momento, quando lembrou-se da caricatura que foi aos poucos tomando conta das feições deles, quando ela os encarou, e como isso a fez passar mal.
-          Posso perguntar uma coisa a vocês????
   A mulher olhou para traz, pensativa, e em seguida acentiu com um gesto leve de sua cabeça.
-          Por que eu passo tão mal, quando esses sujeitos estão por perto???
   Hauthiwolfs respondeu antes mesmo de Hlokk abrir a boca:
-          É o seguinte. Você é sensível, porque provavelmente tem haver com as Idisires, como é o caso desse “Cisnezinho Estridente” aqui ao lado! Provavelmente você tem algo em comum com algum Clã ligado aos Vanires ou aos Aesires, por descendência antiga, ou mesmo por uma questão de chatice mesmo!
-          HAUTHIWOLFS!!!! Eu já disse pra você, um milhão de vezes, para parar de me chamar por esse nome!!!
-          Chatice???? Eu não entendi??
-          Não ligue para ele. Está fazendo suas gracinhas de novo, seu senso de humor é distorcido, embora o que ele disse no começo faça muito sentido.
-          Mas como? Que eu saiba, sou uma “clássica” brasileira nata, e ninguém nunca me disse que houvesse qualquer parente antigo, perdido, que tivesse vindo de países onde neve caísse. Até mesmo a tal “parente da minha mãe”, que é  dessa cidade, é casada com alguém que tem ancestrais daqui, e não diretamente ela.
-          Frigga, me dê paciência!!! Isso não tem exatamente haver apenas com laços próximos de sangue, tem haver com o que em algum passado distante, seus ancestrais vieram a fazer, e como isso pode ter despertado no seu sangue.
   Naquele momento, o carro parou em frente ao portão de entrada de um sítio, como os muito na região que eram alugado para festas ou para passar temporadas.
   Rauthiwolfs desceu do carro e abriu o portão, entrou e guiou até um pouco mais a frente, e em seguida voltou para trancá-lo.
   Depois entrou no carro, e guiou por mais minutos, até a entrada do sítio.
   Desceram do carro, e seguindo Rauthiwolfs, foram até uma área que ficava logo após a garagem coberta, onde haviam 2 mochilas de viagem.
   Rauthiwolfs pegou a maior e então, com toda a educação, jogou a sobre Arícia, que por pouco não  a deixou cair.
-          Ei! Que idéia é essa???
-          Simples! Eu guiei. Eu abri e fechei o portão. Eu estou tomando conta de “criancinha birrenta”. Logo,  você é quem carrega as fraldas!
-          Ora seu “engomadinho”.....
-          Parem com isso vocês dois!! Temos muito o que fazer, e os convidados indesejáveis logo, logo,  estarão aqui!
-          Então o carro lá atraz era deles esmo???
-          Oh, sim, sim!! Eu mal posso esperar!!
   Quando Arícia viu o sorriso sombrio de Rauthiwolfs, não conseguiu entender como alguém que era tão pomposo para se vestir, poderia estar tão ansioso para ficar cara a cara, com aquelas coisas.
   Ficou pensando nisso por algum tempo, enquanto caminhavam pela grama, até uma área com árvores e uma clareira. Era fácil, e até gostoso, caminhar sob a lua cheia, se não fosse o pesso da mochila teria sido até algo relaxante, dadas as circunstâncias.
   Alí haviam troncos de árvores colhidos na mata, arrumados e formando uma enorme pilha, de maneira a  demonstrar que se tratava de que seria uma fogueira.
   Hlokk retirou  então alguns apetrechos, que estavam na mochila que Rauthiwolfs trouxe.
   Determinou por uma bússula onde estaria o Norte Magnético, depois inclinou o corpo um pouco para direita, e colocou sobre uma toalha branca, colocada sobre o solo, uma taça feita de madeira, cercada de flores de todos os tipos, formando uma coroa em volta da enorme taça de madeira.
   Em volta colocou Vinte e Quatro pedaços de algo alaranjado, com algumas marcas estranhas. Olhando por alguns instantes notou que já havia visto alguma coisa assim, em  uma revista que uma garota em sua escola acabou esquecendo sobre a carteira.
   “...Acho que isso são Runas...”
   A direita havia um chifre, e a esquerda havia um punhal pequeno, que possuía a cabeça de uma águia, na empunhadura.
   E havia um pássaro de Madeira, uma ave de rapina, em pé logo depois da linha de flores e de Runas.
   Em volta da toalha ela colocou penas grandes e acinzentadas.
   Rauthiwolfs ascendeu a fogueira.
   Em seguida acrescentou fumo ao interior do fogo, o que preenchou o lugar o odor deste, uma parte ele deixou sobre uma base de pedra, que gerando fumaça, deixou que passasse por todo o seu corpo.
   Hlokk, após terminar de arrumar aquele “altar”, fez o mesmo. Em seguida chamou Arícia até a fumegação, e então fez com que ela própria se deixa-se afetar pela fumaça.
   A Arícia, vendo a distância pareceria mais uma excentrissidade de algum hippie doido.
   Mas ali, naquela hora, pareceu a coisa mais tranquilizarora que poderia ter feita a si mesma. Dava-lhe a impressão de ter retirado os resquícios do mal estar, que ainda estavam nela.
    Então, Hlokk convidou Arícia para caminhar com ela, em volta do fogo, fazendo um círculo que envolvia até mais de um metro, após o altar.
   Rauthiwolfs estava com sua atenção dividada, naquele momento.
   Enquanto alimentava e cuidava zelosamente do fogo, observava as sombras além das árvores mais próximas.
   Arícia e Hlokk, já haviam dado duas vagarosas voltas, batendo palmas ritimadamente, enquanto Hlokk cantava uma música em uma língua que Arícia não conhecia, mas achava a pronúncia encantadora.
   Ela ouvia e batia palmas no rítmo que seguia. Ouvia e balbuciava o que Hlokk cantava. Ouvia e sorria, sorria!
   E por fim, estava cantando a mesma melodia ritimada, que repetia constantemente as palavras “Ostara” e “Brozingamen”, exatamente como Hlokk estava fazendo.
   Neste momento, um movimento extremamente rápido de Rauthiwolfs, saltando para fora do círculo, em posição de guarda erguida, retirou tanto Hlokk, quanto Arícia, do transe.
   As “coisas” que estavam naquele bar, estavam saindo das sombras próximas das árvores, e estavam armadas com “lâminas” muito compridas, e como eram feios. Nem mesmo as “mulheres” estavam dando sinais maiores de feminilidade, do que traços somente reconhecíveis a Arícia, por tê-las visto anteriormente, e apenas por isso.
   Somente o sujeito mais velho, dava sinais de não ter nenhuma alteração na aparência, mas a luz da luz, parecia sair dele algo que produzia mal estar, como se fosse uma espécie de agressão, e que desta vez, não obtinha sucesso em alcançar Arícia, as circunvagações que ela e Hlokk fizeram, pareciam ter tornado isso impossível.
   Então as coisas grotescas pularam para cima de Rauthwolfs, e Arícia entendeu algumas coisas.
   Ela finalmente entendeu de onde provinha o ar de fúria contida dele, e o motivo por estar tão ansioso em encontrar com todos eles.
   Rauthiwolfs estava com uma imagem, que aos poucos parecia a Arícia, ser duplicada.
   Ela viu quando ele ergue um braço para aparar um golpe, mas foi uma garra que destroçou e pescoço do agressor.
   Ela notou quando ele saltou – alto demais – para o lado, mas eram patas que suportaram o impácto no solo.
   E quando ele investiu com suas mãos extendidas, enquanto o pobre terno engilhava-se durante todo o movimento que fazia, e sacudia ao vento, eram pelos longos que pendiam de uma cabeça comprida que lembrava um urso ou um lobo.
   Um a um, todas aquelas coisas estranhas foram eliminadas.
   Quando a última caiu, o sujeito mais velho, que não havia se pronunciado e nem se movido até aquele momento, começou a caminhar calmamente em direção a ele mesmo.
   Arícia viu quando algo estranho como uma “lufada fria”, se projetou sobre Rauthiwolfs, e ele foi arremeçado para longe, caindo dentro do diâmetro da circunvação que Arícia e Hlokk, haviam feito.
-          ONDE ESTÁ ELA???????
   Gritou estridentemente enquanto encarava aos três, que estavam próximos do fogo.
   Hlokk então sorriu, e disse:
-          Bem atraz de você!!!
   Arícia não parecia entender isso.
   Não parecia haver nada atraz do sujeito (que alias estava pálido, mais magro e parecia estar mais alto do que antes), nada a não ser uma grande quantidade de flores, que perfaziam um cinturão no chão.
   E no meio exato deste cinturão de flores, um pequeno redemoinho começou a girar, e foi aumentando até abraçar a todo o cinturão, e erguer-se para o céu, formando um verdadeiro tubo de vento e flores, que literalmente explodiu espalhando as flores por toda a parte, e causando um grande temor em Arícia a princípio, pois algo estava no local exato onde o cinturão de flores antes se encontrava.
   Era uma mulher loira e de olhos verdes.
   Era muito alta, com um corsete de batalha, e vestes compridas, portando uma espada na cintura.
   Quando Arícia olhava para ela, era como se todas as cores bailassem em todas as suas tonalidades, harmoniosamente em suas vestes, e em seus cabelos, e principalmente em seus olhos que mais pareciam com  esmeraldas incandescentes.
   E era etérea, pois ao se mover dava a impressão de que não movia os pés, ocultos sobre o tecido comprido.
   Vinham com ela, mais Três outras mulheres, muito parecidas com Hlokk.
-          Então Belgermir não desistiu? E enviou desta vez um dos seus para conseguir o que não lhe pertence???
  O sujeito, em quem Arícia não havia mais reparado, dado o efeito hipnótico causado pela mulher a sua frente. Estava completamente branco, e suas roupas haviam sumido, deixando no lugar uma nuvem esbranquiçada que  cobria partes dele mesmo.
   Quando falou, era como se o vento frio falasse, e a voz era destoante:
-          Vim para cobrar um dívida antiga! Ou para tomar a força!
   Então ele começoua a se mover na direção da mulher estérea a sua frente, que simplesmente ergueu a lâmina que carregava consigo estranhamente ornamentada, como se fosse uma garra de ave de rapina, na região da empunhadura e proteção das mãos. Essa estranha espada parecia emitir um canto estridente, como se fosse uma pássaro.
   O sujeito esbranquiçado, rindo gerou mais uma lugada intensa de vento, e começou a congelar a natureza a sua volta. Apesar do fogo Arícia sentiu uma espécie de frio produzindo melancolia dentro dela mesma.
   Quando se aproximou o suficiente, e a lufada de vento gerava uma névoa empalidescente, e esticou suas mãos ossudas, para pegar a estranha mulher a sua frente, foi partido ao meio pela espada.
   A espada começou a silvar como se um gavião, ou outro pássaro como este, acabasse de agarrar e abater uma presa.
   O sujeito se desfez na mesma hora.
   Arícia estava estupefata.
   As Três acompanhantes, vieram para perto do fogo, e com uma mesura, cumprimentaram Hlokk e ajudaram Rauthiwolfs a se levantar.
   Depois encararam Arícia, e trocaram olhares entre si.
   Quando a mulher etérea chegou perto, Arícia ficou ainda mais boquiaberta com sua presença. Era ainda mais refulgente quando estava próxima.
-          Ora, ora! Parece que Hlokk ainda tem o seu toque para encontrar flores que estam por desabrochar. Pequenina, venha para perto de mim!
   Em qualquer outra circunstância, Arícia regatearia primeiro e tentaria causar uma contenda, para poder dar a última palavra, um vício antigo. Mas ali, vendo aquele “Mulher”, que causa euforia na própria vida a sua volta, ela simplesmente obedeceu e ficou próxima a Ela.
   E Hlokk recomeçou então o canto, e o bater de palmas.
   Desta vez, além de Arícia, todos os presentes a acompanhavam, enquanto a “Mulher Alta”, se deslocou para mais perto do fogo, e ergueu os braços fazendo uma saudação a terra, enquanto uma vriza morna e alegre preenchia todo o ambiente.
   Circularam por nove vezes, e brindaram com o chifre por nove vezes.
   Então Arícia adormeceu, enquanto conversavam todos sobre.
   Quando abriu seus olhos, estava em seu quarto.
   “...Que pena...Foi um sonho...Bem devolta a asquerosa realidade...” .
   Vestiu-se, como sempre sem muita vontade, e de qualquer jeito.
   Desceu a escada estranhando a princípio que o costumeiro pó, não era levantado por seus pés quando caminhava.
   Foi até a cozinha, pensando em encontrar a costumeira sena de sua mãe “falando pelos cotovelos”, enquanto seu pai bufava e saía sem comer direito.
   Estancou na porta da cozinha vendo uma sena alienígena a sua rotina cotidiana.
   Sua mãe estava beijando o seu pai, enquanto servia-lhe café recém preparado, em uma mesa onde havia comida “aparentemente comível”.
   E mais pasma ainda ficou, ao ver  a mãe usando um “avental” de quem se ocupa em casa, com alguma coisa diferente das caraminholas e paranóias de sempre.
-          Olá querida? Como está? Dormiu bem? Sente-se e tome o seu café com bolinhos, antes que esfrie!
   “...Querida? Bolinhos? Quem raptou minha mãe e colocou esse clone no lugar?...”
-          Ah, claro....Uhmm...Onde vocês compraram os bolinhos, estão muito bons??
-          Foi sua mãe quem preparou, hoje de manhã quando se levantou para rrumar a casa!
   Seu pai, Carlos, sorria como Arícia jamais em toda a sua vida poderia ter visto até aquele momento.
   E sua mãe estava com o semblante tranquilo, muito diferente do que ela já estava acostumada a ver todos os dias.
   “...Será que eles fizeram como os Hamisters??????...” – era o que pensava Arícia naquele exato momento.
   Após o “susto” da manhã, Arícia saiu de casa para respirar um pouco e tentar colocar sua cabeça em ordem. Afinal o “sonho” já havia sido estranho, e mais aquila sena idílica da manhã, foram demais para ela.
   Então quando ela estava chegando na tão adorada pracinha, de que Arícia tanto gostava, ela ouviu:
-          Olá Arícia? Gostou do Blot desta madrugada?
-          Você????? Quer dizer......Então não foi sonho??? Mas como eu fui parar em casa?
-          Tudo a seu tempo. Freija mandou dizer que gostou muito de você!
-          Ahamm...Sério??? Bem eu também achei que ela era...Bom eu não sei exatamente se tem um jeito de falar isso?
-          Não se preocupe. Eu disse que você entenderia o que é a beleza dela, quando a visse.
-          Bom. Agora que já passou a celebração, o que você está fazendo por aqui???
-          Vim deixar para você uma cortesia. Mas depende de você aceita-la.
-          O que é???
-          Conhecimento! Então o que me diz???
-          Bem...Minha “enorme agenda” está muito cheia, e eu preciso checar meus agentes...Bem....
-          Oh Frigga ... Você conviveu por meio dia com Rauthiwolfs e já está falando como  ele. Eu não vou aguentar!!!
-          Tá certo, tá certo! Era só uma brincadeirinha! Eu estou muito curiosa para saber  mais, mas tenho um pouco de receio, depois do que eu ví desde ontem.
-          É normal. Mas como eu disse, você aceita???
-          Sim. Quando começamos?
-          Já começamos. Eu vou viajar para cuidar de algumas coisas, e devo aparecer de vez enquando para ver como estão as coisas com sua mãe e seu pai, e para lhe trazer alguns detalhes.
-          Foi você que fez aquilo a eles???
-          Bem...Foram eles mesmos na verdade, eu somente dei um empurrão, por isso a coisa deve ser duradoura.
-          Ah...Obrigado, eu nunca havia tomado de manhã um café bebível, antes.
-          De nada.....
   As duas gargalharam, e em seguida se despediram.

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